O presidente Javier Milei voltou a atacar o aborto legal na Argentina, ligando-o à queda da natalidade, em um discurso de quase uma hora para empresários no Council of the Americas, em Buenos Aires. Ele também chamou de "estupidez" dizer que as pessoas não chegam ao fim do mês e defendeu sua gestão com dados oficiais.

Milei no Council of the Americas: economia, natalidade e crítica dura ao aborto

No encerramento do Council of the Americas, realizado nesta quinta-feira, 20 de agosto de 2026, no hotel Alvear Palace, em Buenos Aires, o presidente Javier Milei fez um discurso de quase uma hora (58 minutos) em que repassou os supostos sucessos econômicos de seu governo, atacou a oposição e o aborto legal, ligando a queda da natalidade no país ao crescimento econômico e ao sistema previdenciário.

“Estamos pagando muito caro pela loucura dos lenços verdes”, disse Milei, referindo-se ao símbolo da campanha pelo aborto legal na Argentina, que se tornou realidade com a Lei 27.610 de Interrupção Voluntária da Gravidez (IVE), aprovada em dezembro de 2020.

Segundo o presidente, a Argentina não alcança uma taxa de reposição populacional. “Essa paixão por assassinar crianças no ventre da mãe também nos custa caro em crescimento, e nem vou falar do sistema previdenciário”, completou.

Os números que desmentem a afirmação

Especialistas consultados por Chequeado e outras entidades afirmam que não há evidência de que o aborto seja a causa principal da queda de natalidade. O Banco Mundial registra queda de natalidade em todo o mundo há mais de uma década. O fenômeno é multicausal: inclui o ingresso da mulher no mercado de trabalho, o acesso a anticoncepcionais, a incerteza econômica e novos projetos de vida, explica María de las Nieves Puglia, diretora de Gênero da Fundação Fundar.

Dados da agência da ONU para população (UNFPA) na Argentina mostram que 57% das pessoas de 18 a 45 anos querem ter mais filhos, mas não têm por razões econômicas e falta de estabilidade. O país registra atualmente 1,2 filho por mulher – uma das taxas mais baixas da América Latina.

Milei chamou de “estupidez” dizer que a população não chega ao fim do mês

Em um momento do discurso, Milei citou Jorge Luis Borges para criticar os que apontam que as pessoas não chegam ao fim do mês ou que o progresso tecnológico destrói empregos. “Se fosse verdade, a taxa de desemprego seria de 90%”, disse. Segundo ele, o desemprego está em 7,8%, e as declarações sobre a dificuldade econômica seriam uma “repetição de estupidezes”. Defendeu ainda a abertura comercial: “A economia argentina é uma prisão”.

Os números citados pelo presidente

  • Inflação maiorista: de 54% em dezembro de 2023 para 0,8% em julho de 2026.
  • Crescimento: 6% em 2024 e 4% em 2025 (acumulado de mais de dez pontos).
  • Pobreza: mais de 14 milhões de pessoas saíram dessa condição.

O presidente comparou também a inflação recebida e entregue por seus antecessores:

Inflação comparada
  • Cristina Kirchner: recebeu 8,5% e entregou 26,9%.
  • Mauricio Macri: recebeu 26,9% e entregou 53,8%.
  • Alberto Fernández: recebeu 53,8% e entregou 211%.

“Baixamos 85% da inflação. A foto continua horrível, mas a película é a melhor da história argentina”, disse o presidente.

Ataque a jornalistas e críticas à imprensa

Milei também atacou o jornalismo. Citou Débora Plager, do canal LN+ — a quem já havia chamado de “cúmplice de assassinato” em 2025 –, como parte do que ele chama de “agenda verde”. Ele disse que os “lenços verdes” são os responsáveis por um custo que a Argentina paga até hoje.

Defesa de Federico Sturzenegger

O presidente também saiu em defesa do ministro da Desregulação, Federico Sturzenegger, atacado por setores da oposição: “Quando você vir um lixo humano criticando o Federico, é porque ele está mexendo em negócios”. Sturzenegger é o responsável pela reforma que retirou milhares de normas da economia argentina.

Para entender o contexto: o Council of the Americas é um fórum empresarial que reúne executivos do hemisfério. A fala de Milei aconteceu em um momento em que seu governo enfrenta disputas com a mídia e resistências a novas mudanças econômicas, mas o presidente segue com aprovação popular acima de 50% em alguns institutos – embora os dados de pobreza ainda sejam altos.

Fontes:
La Nación
Infobae
Urgente24
La Voz