Mais de 15 anos após o rover Spirit da NASA parar de funcionar, uma equipe internacional de cientistas reanalisou seus dados históricos e encontrou novos rastros ocultos. Esta pista fascinante sugere que a água líquida não foi um fenômeno isolado, mas sim um elemento estendido por grandes áreas do planeta vermelho.

Uma descoberta fantasma duas décadas depois

O veículo explorador robótico (rover) Spirit, da NASA, parou de funcionar em 2010, preso na areia marciana após uma missão que começou em janeiro de 2004. No entanto, seus dados continuam a revelar segredos que mudam a nossa compreensão do planeta vermelho.

Uma nova análise das medições recolhidas pela sonda entre 2004 e 2010 revelou vestígios até agora despercebidos de hematita cristalina e magnetita alterada no solo comum de Marte. Estes são dois minerais de ferro que só aparecem quando a água e a rocha interagem durante longos períodos de tempo.

Detalhes do estudo científico

A descoberta foi publicada em 26 de junho de 2026 na revista especializada Interactions e divulgada pela Universidade Edith Cowan (ECU) da Austrália. A equipe foi liderada pelo professor Paulo de Souza, autor principal do estudo.

Os cientistas não precisaram recolher novos dados. Reprocessaram centenas de medições individuais realizadas em 32 locais de solo intacto dentro da Cráter Gusev, uma enorme depressão no equador de Marte onde o Spirit pousou. Assim, conseguiram criar o perfil de minerais de ferro mais detalhado já obtido para um solo marciano típico.

O que é a hematita cristalina?

A hematita cristalina é um dos indicadores mais confiáveis de água passada em Marte. Embora possa formar-se por atividade vulcânica, geralmente desenvolve-se quando rochas ricas em ferro interagem com água líquida. Até agora, acreditava-se que estava praticamente ausente no local de aterrissagem do Spirit.

O ruído de fundo escondia o sinal

O sinal destes minerais era demasiado fraco para ser detectado em medições individuais do rover. Ao combinar milhares de espectros recolhidos durante seis anos de missão, a equipe conseguiu extraí-lo do ruído. Junto a ele apareceu a magnetita alterada, prova de que os minerais vulcânicos originais foram transformados quimicamente ao longo do tempo pela água.

Implicações para todo o planeta

Como grande parte de Marte está coberta por poeira e solo semelhante ao da Cráter Gusev, as implicações vão muito além dessa zona. Os processos químicos relacionados com a água podem ter sido muito mais generalizados em todo o planeta do que se pensava.

Uma história que cresce missão após missão

  • Spirit: Já havia encontrado rochas alteradas por água nas Colinas Columbia, dentro da própria Cráter Gusev.
  • Curiosity: Descobriu que a Cráter Gale abrigou lagos de longa duração.
  • Perseverance: Explora hoje um antigo delta fluvial na Cráter Jezero, buscando vestígios de vida microbiana.

Este trabalho demonstra que as descobertas importantes nem sempre são conseguidas recolhendo novos dados. Às vezes, surgem de analisar os dados existentes com uma perspetiva renovada e melhores técnicas analíticas, concluiu De Souza.

Fonte: Rosario3