18/06/2026 09:42 - Economia
Ejecutivos empresariales debatiendo en una sala de reuniones moderna con gráficos económicos sobre la mesa. Ambiente corporativo profesional con luz natural. Expresiones faciales de análisis y preocupación. Estilo fotoperiodismo.
A menos de um ano das eleições de 2027, os círculos empresariais argentinos realizam um balanço matizado da gestão de Javier Milei, o presidente libertário que assumiu em dezembro de 2023. Enquanto celebram o ordenamento macroeconômico e a estabilidade cambial, expressam preocupação com o que consideram uma abertura "ingênua" da economia e o deterioro da infraestrutura pública.
Javier Milei é um economista e político argentino que chegou à presidência com propostas radicais de liberalização econômica, extinção de ministries e dolarização. Seu estilo confrontativo e suas ideias libertárias despertaram interesse internacional, mas também geram debates sobre a sustentabilidade de seu modelo.
Segundo fontes do setor privado consultadas pelo jornal Ámbito, a maioria dos empresários avalia positivamente o rumo econômico do Governo. Os pontos mais elogiados incluem:
Um dos pontos mais controversos para o empresariado local é a forma como o Governo maneja a concorrência com empresas chinesas. Diretores de importantes grupos locais alertam que "não se está disputando apenas com companhias, mas também com o Estado chinês", que segundo eles está por trás das corporações daquele país.
Políticas de conteúdo local ou "compre local" são mecanismos que priorizam fornecedores nacionais em grandes obras e projetos, garantindo emprego e desenvolvimento industrial. Empresários argentinos denunciam que a importação de módulos prefabricados da China "destrói" essa política.
O caso mais citado é o do megaprojeto de cobre Distrito Vicuña em San Juan, onde o consórcio mineiro Lundin Mining e BHP adjudicou a empresas da China a instalação do Acampamento Batidero, uma mini-cidade modular com capacidade inicial de 2.500 leitos. O vencedor foi um consórcio liderado pela estatal Power China.
Fornecedores locais denunciam que serão importados módulos de aço prefabricados totalmente equipados da China, o que segundo eles "destrói o compre local". A União Industrial Argentina e a Câmara Argentina da Construção expressaram seu descontentamento com esta decisão.
A Associação Argentina de Orçamento e Administração Financeira Pública (ASAP) documentou que o investimento real direto do Estado nacional nas províncias despencou 72,5% em abril de 2026 comparado com igual mês do ano anterior. É o corte percentual mais severo em 18 meses.
A Argentina é um estado federal com 23 províncias e uma cidade autônoma (Buenos Aires). O corte nos repasses federais afeta obras públicas, estradas, hospitais e escolas em todo o território, algo que brasileiros podem comparar com a relação entre Estados e União no Brasil.
A posição do Governo, impulsionada especialmente pelo ministro de Desregulação Federico Sturzenegger, sustenta que os privados realizarão todas as obras necessárias. No entanto, os empresários consideram que esta visão "dogmática" adia soluções urgentes e aprofunda o chamado "custo argentino".
PMEs (Pequenas e Médias Empresas) são o motor da economia argentina, como no Brasil. Empresas com até 500 empregados representam a maioria do emprego formal e da produção industrial. O fechamento massivo dessas empresas tem impacto social profundo.
O Centro de Economia Política Argentina (CEPA) revelou dados alarmantes sobre o setor produtivo mais vulnerável:
| Período | Redução de empregadores | Média diária |
|---|---|---|
| Nov 2023 - Mar 2026 | -26.448 empresas | 31 fechamentos por dia |
| Empresas até 500 funcionários | 99,75% do total de fechamentos (26.382 empresas) | |
| Empresas com mais de 501 funcionários | 0,25% do total (66 casos) | |
Fonte: CEPA sobre dados da Superintendência de Riscos do Trabalho.
O presidente Milei viajará aos Estados Unidos no início de julho de 2026, convidado por Donald Trump para os 250 anos da independência norte-americana. No entanto, fontes diplomáticas consultadas pelo Ámbito alertam que as relações com a primeira potência "não passam pelo melhor momento".
Funcionários da Casa Branca expressam que a administração libertária não estaria cumprindo compromissos assumidos com os republicanos após o respaldo de USD 20 bilhões que permitiram estabilizar o mercado cambial em 2025.
O ponto mais conflitivo é a concessão do dragado da Hidrovia ao consórcio Jan De Nul, acusado de ter vínculos com empresas chinesas. O consórcio concorrente DEME ofereceu uma tarifa 17,4% mais baixa, o que representaria uma economia de USD 2,5 bilhões para Argentina e usuários.
A Hidrovia Paraguai-Paraná é uma rota fluvial de mais de 3.400 km que conecta Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai ao mar. É fundamental para exportação de soja, milho e minérios brasileiros e paraguaios. O dragado garante a profundidade para navios grandes.
O jornal The Floridan publicou um artigo do jornalista Javier Manjarres, próximo ao secretário de Estado Marco Rubio, intitulado "¿Amigo o enemigo?" sobre a relação Milei-Trump.
Nos círculos empresariais já se conversa sobre as eleições de 2027. Há setores que buscam figuras que assegurem a continuidade do modelo (equilíbrio fiscal, abertura, alinhamento com o mundo capitalista) mas dentro de um esquema menos "dogmático" que o proposto pelo líder libertário.
O risco país em 425 pontos básicos (mínimo desde abril de 2018), o respaldo do Banco Mundial com garantias por USD 2 bilhões e do BID com USD 500 milhões mais, são sinais de confiança internacional.
A equação é complexa: esses indicadores favoráveis contrastam com o fechamento massivo de PMEs e a preocupação com a concorrência desleal desde o exterior.
Fonte: Ámbito, 18 de junho de 2026.
Alfredo S. Quiroga