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Hidrovía Paraná-Paraguay: Jan De Nul vence concessão por 25 anos com economia de USD 10 por tonelada

19/06/2026 21:17 - Economia

Vista aérea de buques de carga navegando por el Río Paraná en Argentina, con aguas marrenes características, representando la Hidrovía Paraná-Paraguay y el corredor fluvial estratégico para las exportaciones sudamericanas

Uma das maiores privatizações da era Milei

Em 19 de junho de 2026, o governo nacional argentino confirmou a adjudicação da concessão da Vía Navegable Troncal, conhecida como Hidrovía Paraná-Paraguay, ao consórcio integrado pela belga Jan De Nul e pela argentina Servimagnus. As empresas formaram a sociedade Vía Navegable Argentina (VNA), que operará o corredor fluvial durante 25 anos.

O anúncio oficial foi feito pelo Ministério da Economia e materializou-se com a Resolução 36/2026 publicada no Boletim Oficial. A assinatura do contrato está prevista para dentro de no máximo 30 dias.

O processo de licitação foi auditado pela UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) sem que fossem registradas impugnações, o que confere transparência internacional à adjudicação.

O que é a Hidrovía Paraná-Paraguay?

É um corredor fluvial estratégico de 1.238 quilômetros que conecta os rios Paraná e Paraguay com o Rio da Prata e o oceano Atlântico. Por essa via navegam navios de carga de cinco países sul-americanos: Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai.

Para quem não conhece a geografia da região: os rios Paraná e Paraguay formam uma verdadeira "autopista aquática" que permite ao Paraguai e à Bolívia (países sem saída para o mar) exportar seus produtos pelo mundo. O Paraná é o segundo rio mais extenso da América do Sul, depois do Amazonas.

É o principal canal de saída das exportações argentinas, especialmente grãos e derivados. Estima-se que transporte 80% das exportações argentinas.

A concessão inclui a operação, cobrança de pedágio, manutenção, sinalização e tarefas de dragagem desde o quilômetro 1.238 do rio Paraná até a zona de águas profundas do Rio da Prata.

Benefícios anunciados

  • Redução de 13,5% nos custos logísticos para produtores agroexportadores
  • Economia de USD 10 por tonelada transportada
  • Investimento em tecnologia de última geração com padrões ocidentais
  • Obras de aprofundamento da via navegável
  • Maior velocidade de navegação e segurança
  • Combate ao narcotráfico mediante tecnologia de monitoramento

Os números da concessão

Conceito Valor
Duração da concessão 25 anos
Redução nos custos logísticos 13,5%
Economia por tonelada USD 10
Faturamento anual estimado USD 628,2 milhões
Receitas projetadas (25 anos) USD 15.660 milhões
Pontos técnicos Jan De Nul 66,20 pontos
Pontos técnicos DEME 42,14 pontos
Diferença tarifária oferecida por DEME 17,4% mais desconto

O processo de licitação e a controvérsia prévia

A Jan De Nul não é uma novata na Hidrovía. Entre 1996 e 2021, a empresa belga operou o corredor fluvial em consórcio com a argentina Emepa. Quando o contrato caducou durante o governo de Alberto Fernández, a operação passou para mãos estatais, embora a Jan De Nul tenha continuado como subcontratada.

A primeira tentativa de licitação sob o governo de Milei, em novembro de 2024, foi declarada nula em fevereiro de 2025 porque apenas se apresentou uma oferta: a da DEME. O Executivo acusou naquele momento a concorrente de tentar sabotear o processo.

Durante este segundo processo, um consórcio de empresas estadunidenses que apoiavam a DEME enviou uma carta à Casa Branca e ao governo argentino advertindo sobre suposta falta de transparência e um "viés" a favor da Jan De Nul. Além disso, o republicano Brian Mast, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, escreveu ao secretário de Estado Marco Rubio alertando sobre supostos vínculos da Jan De Nul com entidades estatais chinesas.

A Jan De Nul respondeu assegurando que não haveria participação de empresas chinesas nem "injerência estatal externa", priorizando soluções tecnológicas ocidentais, especialmente dos Estados Unidos.

O papel do Estado: de operador a regulador

Com esta concessão, o Estado argentino passa de operador direto a cumprir um papel de regulador do corredor fluvial. Esta transformação busca profissionalizar a gestão, atrair investimento privado e modernizar a infraestrutura.

Desde CIARA-CEC (a câmara empresarial do setor agroexportador) se pressionou para acelerar a definição e se solicitou a isenção de IVA (imposto sobre valor agregado, equivalente ao ICMS brasileiro) para maximizar os benefícios da mudança operativa.

Críticas e reclamações pendentes

A Fundação Mediterrânea (importante think tank econômico argentino) reclama uma reforma da Lei de Cabotagem (norma que regula o transporte marítimo/fluvial nacional) para desenvolver o Alto Paraná. Atualmente, o Paraguai tem a terceira frota mercante mundial graças a um regime favorável (10-10-10), enquanto a Argentina mantém restrições que limitam sua competitividade no setor.

A ausência de uma reforma integral do setor naval poderia atentar contra os benefícios esperados da privatização da Hidrovía.

As declarações do consórcio vencedor

Wim Bosteels, procurador da Jan De Nul, afirmou: "Recebemos esta ratificação com satisfação, mas sobretudo com uma profunda responsabilidade. Somos plenamente conscientes da importância que tem a Vía Navegable Troncal para a competitividade da Argentina e para o desenvolvimento de suas cadeias produtivas. Nosso compromisso é colocar a serviço do país as melhores capacidades técnicas, humanas e tecnológicas para continuar fortalecendo uma infraestrutura estratégica para as próximas décadas."

Marcos De Vincenzi, gerente geral da Servimagnus, destacou: "Apresentamos uma proposta sumamente sólida, sustentada no investimento privado, na utilização de equipamento próprio, no cuidado do meio ambiente, em uma equipe profissional altamente qualificada, e em uma inédita transferência tecnológica. Nosso propósito é oferecer aos usuários e ao Estado as garantias operativas necessárias para contar com uma via navegável moderna, transparente e competitiva a nível global."

O projeto prevê gerar emprego direto e indireto para mais de 600 famílias, com políticas de transferência tecnológica e desenvolvimento regional.

Contexto para leitores internacionais

A Hidrovía Paraná-Paraguay é uma das artérias econômicas mais importantes da América do Sul. Para entender sua relevância: o rio Paraná é o segundo mais extenso do continente (após o Amazonas) e atravessa Brasil, Paraguai e Argentina antes de desembocar no Rio da Prata, entre Buenos Aires e Montevidéu.

Este corredor fluvial permite que países como Bolívia e Paraguai, que não têm saída direta para o mar, possam exportar seus produtos (soja, milho, minérios) a custos competitivos. No caso argentino, a hidrovía é fundamental para o setor agrícola: o país é um dos maiores exportadores mundiais de grãos e derivados.

A empresa belga Jan De Nul é uma das maiores companhias de dragagem do mundo, com presença em mais de 50 países. Já a argentina Servimagnus é uma empresa local com experiência em operações portuárias.

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A Coluna de Alfredo Alfredo S. Quiroga

Alfredo S. Quiroga