29/06/2026 16:58 - Salud
Os distúrbios musculares representam um dos efeitos adversos mais temidos do tratamento com estatinas, gerando preocupação tanto em pacientes quanto em médicos no momento de prescrever esses medicamentos fundamentais para a prevenção cardiovascular. Essa inquietação provocou dúvidas e até a interrupção injustificada do tratamento em pacientes que deveriam tomá-los para prevenir infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVC).
Pesquisadores do Departamento de Ciências da Saúde de Atenção Primária Nuffield da Universidade de Oxford (Reino Unido) desenvolveram uma nova calculadora que estima o risco de uma pessoa desenvolver distúrbios musculares graves por causa das estatinas. A ferramenta, disponível através da loja de software da Oxford University Innovation, permite que pacientes e médicos tomem decisões mais informadas.
A pesquisa publicada no The Lancet Digital Health revelou que mais de 98% das pessoas identificadas por seus médicos de família como candidatas ao tratamento com estatinas apresentavam baixo risco de sofrer distúrbios musculares graves durante a próxima década.
O estudo também evidenciou uma importante lacuna no tratamento: mais de 60% das pessoas candidatas a receber estatinas não as tomavam, apesar de algumas apresentarem alto risco de infarto ou AVC.
O modelo se baseia em 22 fatores que são registrados de forma rotineira nos prontuários médicos:
A ferramenta estima o risco de sofrer distúrbios musculares graves em prazos de um, cinco e dez anos, e está projetada para ser utilizada junto com ferramentas de avaliação cardiovascular como o QRISK.
Os pesquisadores utilizaram registros médicos anonimizados de mais de 5,6 milhões de pessoas registradas em centros de atenção primária de toda a Inglaterra:
| Grupo | Quantidade de pessoas | Finalidade |
|---|---|---|
| Desenvolvimento do modelo | 1.785.207 | Criar o algoritmo preditivo |
| Validação externa | 3.889.504 | Verificar precisão |
| Total analisado | 5.674.711 | Base de dados completa |
O estudo incluiu homens de 50 anos ou mais e mulheres de 60 anos ou mais, acompanhados dentro do período 1998-2018, utilizando a base de dados Clinical Practice Research Datalink (CPRD).
As estatinas são medicamentos amplamente prescritos para reduzir o colesterol LDL (lipoproteína de baixa densidade), conhecido como "colesterol ruim". Podem reduzi-lo até em 60%, diminuindo significativamente o risco de infarto e AVC.
Princípios ativos comuns:
Na Argentina e no Brasil, esses medicamentos são distribuídos gratuitamente em farmácias populares e pelo sistema público de saúde para pacientes de alto risco.
É importante distinguir entre:
Dor muscular leve, geralmente não causada pelas estatinas.
Distúrbio muscular que causa dor, fraqueza e fadiga.
Condição grave onde o tecido muscular se decompõe, liberando toxinas no sangue. Taxa inferior a 0,1%.
Cerca de 30% dos adultos argentinos possui colesterol total acima dos valores recomendados, segundo estimativas do Ministério da Saúde.
Apenas 16% dos pacientes de alto risco consegue atingir os valores recomendados de LDL, segundo a Sociedade Argentina de Lipídeos.
No Brasil, dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia indicam cenário similar, com subtratamento significativo em pacientes de alto risco cardiovascular.
Ting Cai, pesquisadora de Oxford:
Os distúrbios musculares graves são uma das preocupações mais debatidas sobre as estatinas, mas nossas descobertas sugerem que o risco é muito baixo para a grande maioria das pessoas que poderiam se beneficiar do tratamento.
Dr. Steve Nissen, Clínica Cleveland:
Em mais de 40 anos de prática, nunca tive que hospitalizar um paciente devido a complicações musculares graves causadas pelas estatinas.
Prof. Bart Duell, Universidade de Oregon:
Mesmo assumindo um risco dez vezes maior, este continua sendo uma porcentagem muito pequena e não uma razão para rejeitar o tratamento com estatinas.
Dr. Juan Pablo Costabel, ICBA (Argentina):
As estatinas são um dos fármacos mais estudados em medicina e demonstraram de forma consistente reduzir o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular.
A nova calculadora representa um avanço significativo para a medicina personalizada, permitindo conversas mais informadas entre médicos e pacientes. Os especialistas concordam que o medo dos efeitos secundários não deve ser motivo para abandonar um tratamento que pode salvar vidas.
Diante de qualquer sintoma muscular durante o tratamento com estatinas, recomenda-se consultar o médico, que poderá avaliar a causa real da dor muscular e ajustar o tratamento se necessário. Muitos sintomas musculares leves não são causados pelas estatinas e não deveriam impedir que os pacientes iniciem ou continuem o tratamento.
Alfredo S. Quiroga