23/07/2026 09:09 - Actualidad
Em 19 de julho de 2026, a Seleção Argentina perdeu por 1 a 0 para a Espanha na final da Copa do Mundo de Futebol. No entanto, a disputa esportiva rapidamente escalou para um debate social e político global. Durante o torneio, que pela primeira vez contou com 48 seleções, começaram a circular mensagens questionando supostos favorecimentos da arbitragem à equipe liderada por Lionel Messi.
Segundo análise da consultoria Ad Hoc Digital, entre 11 de junho e 20 de julho de 2026 foram detectadas 2,7 milhões de menções negativas contra a Argentina. Destas, 826.000 se referiam a racismo, 764.000 associavam o país a Israel e 688.000 usavam o termo «ArgenFIFA».
O consultor em Assuntos Públicos Digitais, Lucas Malaspina, explicou que o sistema de incentivos das redes sociais favorece a propagação de conteúdos que geram raiva ou polêmica. Além disso, a tradução automática em plataformas como TikTok, X, YouTube e Instagram multiplicou o alcance dessas mensagens. «Não há uma operação centralizada comprovada, mas sim campanhas que aproveitam os algoritmos», afirmou Malaspina.
O contexto político global também influenciou a percepção sobre a seleção. A posição do presidente argentino, Javier Milei (no cargo desde 2023, conhecido por sua extrema-direita liberal e forte apoio a Israel), adicionou elementos à controvérsia. Para parte do progressismo europeu e latino-americano, a Argentina tornou-se um símbolo em suas próprias disputas políticas.
Figuras internacionais como o ator Samuel L. Jackson, que acusou a Argentina de ser «um dos países mais racistas do mundo», e a cantora Rosalía, que replicou um vídeo celebrando a derrota argentina (depois o apagou após rejeição), alimentaram o debate. O jornalista britânico Piers Morgan também se manifestou, lembrando a Guerra das Malvinas.
Em 22 de julho de 2026, Javier Milei respondeu à campanha com uma frase que atribuiu a Winston Churchill sobre ter inimigos. No entanto, segundo o site Chequeado, a citação pertence na verdade ao escritor Victor Hugo (1845). O Instituto do Diálogo Inter-religioso (IDI) também emitiu uma declaração rejeitando as acusações de racismo e xenofobia, destacando mais de 25 anos de convivência inter-religiosa no país.
Especialistas sociológicos consultados pela DW e La Nación concordam que o estereótipo da «arrogância» argentina está historicamente enraizado. Orlando D'Adamo, consultor em comunicação, indicou que esse preconceito foi associado historicamente aos portenhos (habitantes de Buenos Aires) e que existe um componente de inveja na região latino-americana. Sobre a acusação de racismo, D'Adamo a considerou ridícula, argumentando que a composição demográfica do país responde a fatores históricos de imigração e miscigenação, não a uma política de exclusão.
Apesar da onda de críticas, especialistas como Malaspina destacam que a Argentina não é um país odiado, mas polarizante, e que em regiões como Ásia e parte da América Latina recebeu mostras de apoio que tiveram menor visibilidade viral. O futebol, como fenômeno social, mais uma vez demonstra que ultrapassa o esportivo para se tornar um espelho das tensões globais.
Alfredo S. Quiroga