Terremotos na região: Aumentam o risco na Argentina?
Após o terremoto de magnitude 7,4 na Colômbia do 10 de agosto de 2026 e o duplo terremoto na Venezuela de magnitudes 7,2 e 7,5 no final de junho de 2026, a preocupação sobre um evento similar na Argentina foi reavivada. No entanto, especialistas do CONICET e universidades nacionais concordam que esses eventos, embora sirvam como alerta, não modificam o cenário sísmico argentino.
Segundo o geólogo Gustavo Ortiz, sismólogo e diretor do Observatório Sismológico CONICET-UNSJ de San Juan, em entrevista ao Infobae: 'Não aumenta o risco na Argentina o que ocorreu na Colômbia'. Isso porque, embora todos os países mencionados estejam sobre a placa sul-americana, o contato com placas diferentes (a placa do Caribe na Venezuela e a placa de Nazca na Colômbia) determina contextos tectônicos independentes.
Por sua vez, José Luis Tapia, chefe do departamento de analistas da Rede Geocientífica do Chile, explicou à CNN Chile que os terremotos intraplaca 'são mais deficientes em transferir tensões para seus arredores', descartando um impacto direto sobre o Chile ou a Argentina.
Mapa de periculosidade: as cinco zonas de risco
O Instituto Nacional de Prevenção Sísmica (INPRES), que atualizou seu mapa nacional em 2022 com dados coletados desde 1471, divide a Argentina em cinco zonas de periculosidade, numeradas de 0 a 4, de acordo com a probabilidade de registrar movimentos intensos do solo.
| Zona | Periculosidade | Regiões Principais |
|---|---|---|
| Zona 4 | Muito Alta | Sul de San Juan e norte de Mendoza |
| Zona 3 | Alta | Centro de Mendoza, norte e leste de San Juan, oeste de La Rioja, noroeste de San Luis |
| Zona 2 | Média | Outras áreas de Cuyo e NOA |
| Zona 1 e 0 | Baixa a Muito Baixa | Centro, leste e sul do país |
A área de maior periculosidade (zona 4) abrange o sul de San Juan e o norte de Mendoza, incluindo setores urbanos densamente povoados. Lá, as normas de construção exigem padrões sismorresistentes mais rigorosos.
Além disso, existem falhas geológicas ativas nas serras de La Rioja como Famatina, Velasco e Ambato, bem como no Vale de Lerma em Salta, na Quebrada de Humahuaca e nos Vales Calchaquíes.
Dinâmica tectônica: por que treme no oeste
A explicação do risco argentino reside na dinâmica das placas tectônicas. O geólogo Eduardo Malagnino explicou à LN+ que 'A placa oceânica de Nazca (a oeste da América do Sul) se move em direção à zona continental cerca de 7 centímetros por ano e a placa continental se move 1,5 centímetros no mesmo período e em direção contrária'. Ao colidirem, a placa oceânica mais densa se introduz sob a continental em um processo chamado subducção, gerando acúmulo de energia que se libera repentinamente na forma de terremoto.
O INPRES indica que 80% dos eventos sísmicos do país ocorrem a mais de 100 quilômetros de profundidade, enquanto os 20% restantes se originam a menos de 40 quilômetros. Estes últimos são os que historicamente causaram os maiores danos.
Antecedentes históricos
- 📅 1861: Terremoto de Mendoza destruiu a cidade e causou milhares de mortes.
- 📅 1944: Terremoto de San Juan, o mais grave da história argentina, com cerca de 10.000 vítimas fatais.
- 📅 1977: Província de San Juan registrou um incomum 'duplo terremoto', dois terremotos principais separados por trinta segundos.
O caso do NOA e Jujuy
O geólogo Juan Pablo Villalba Ulberich, da Universidade Nacional de Jujuy e CONICET, explicou que no NOA ocorrem entre 10 e 20 sismos diários, a maioria imperceptível por serem muito profundos. Em Susques, Jujuy, os movimentos são frequentes a mais de 200 km de profundidade, com magnitudes de 2.
Recentemente, foi detectado um movimento raso a 5 quilômetros de profundidade perto de Cafayate e San Antonio de los Cobres.
O papel do solo na amplificação de ondas
O geólogo Andrés Folguera, pesquisador da UBA e CONICET, explicou à TN que a profundidade não é o único fator que determina o nível de destruição. 'Os terrenos macios amplificam a onda sísmica', afirmou.
No caso da Colômbia, muitas localidades afetadas estão em vales preenchidos por sedimentos que favorecem a amplificação das ondas. Folguera comparou os vales a uma espécie de 'bacia' que pode favorecer o foco da energia sísmica: 'Você pode ter um sismo muito profundo, mas se a grande maioria das localidades está assentada nos vales, os sedimentos podem amplificar a onda sísmica'.
Em relação a uma possível conexão entre os terremotos da Venezuela e da Colômbia, Folguera afirmou que 'é uma hipótese, mas poderia ser. Poderia ser e poderia não ser também', e mencionou antecedentes na Turquia e no Japão onde segmentos de falhas vizinhas se romperam com meses ou anos de diferença.
A construção sismorresistente: a principal ferramenta de proteção
Andrés Folguera foi contundente: 'Hoje, a forma de proteger vidas é com construções sismorresistentes'.
Tanto Folguera quanto Ortiz concordam que a ciência não pode antecipar quando ocorrerá um sismo. 'É impossível prever eventos sísmicos. A única certeza é que o nível de alerta sempre deve ser mantido', afirmou Ortiz.
Folguera mencionou pesquisas recentes publicadas na revista Geodesy and Geodynamics que analisam mudanças na gravidade antes dos terremotos. São utilizados gravímetros, instrumentos relativamente baratos que poderiam ser instalados em falhas conhecidas para monitorar variações que apareçam dias ou semanas antes de um grande movimento.
Em San Juan e Mendoza, a arquitetura colonial foi completamente substituída após os grandes terremotos. No entanto, no norte argentino persistem zonas vulneráveis com construções antigas. A atualização permanente dos mapas de periculosidade, a educação pública e a regulação de construções continuam sendo os eixos centrais da gestão do risco sísmico na Argentina.