Um marco histórico para a banca digital latino-americana
O Nubank (NU), o banco digital fundado pelo colombiano David Vélez em 2013, reportou resultados que marcam um antes e um depois na indústria financeira da região. Para quem não conhece, o Nubank revolucionou o sistema bancário brasileiro ao oferecer contas digitais e cartões de crédito sem taxas de manutenção, desafiando a banca tradicional. Pela primeira vez em sua história, a empresa superou US$ 1 bilhão de lucro líquido trimestral, consolidando sua transformação de uma fintech focada em cartões de crédito para um dos grupos financeiros mais importantes da América Latina.
Os números que explicam o recorde
As receitas contábeis alcançaram US$ 5,513 bilhões, superando os US$ 5,375 bilhões esperados pelo consenso da Bloomberg, com um aumento de cerca de 50% em relação ao mesmo período do ano anterior. Sob a nova apresentação gerencial, as receitas chegaram a US$ 5,876 bilhões, com uma alta interanual de 39% em moeda constante.
| Métrica | Q2 2026 | Variação |
|---|---|---|
| Lucro líquido | US$ 1,061 bilhão | +49% interanual |
| Receitas | US$ 5,876 bilhões | +39% interanual |
| ROE (Retorno sobre o patrimônio) | 33% | +5 p.p. vs Q2 2025 |
| Clientes totais | 138,9 milhões | +13% interanual |
| Carteira de crédito | US$ 39,4 bilhões | +37% interanual |
| Depósitos | US$ 45,3 bilhões | +18% interanual |
México, a grande aposta estratégica
A expansão internacional foi um dos eixos do trimestre. O Nubank alcançou 16 milhões de clientes no México em julho, tornando-se o maior banco digital do país. A empresa completou o lançamento de seu banco em grande escala em agosto de 2026, o que permitirá ampliar sua oferta além do crédito, incluindo depósitos de salários e maior cobertura.
Os clientes mexicanos já representam 16,5% da população adulta do país, uma penetração comparável à que o Brasil tinha em 2020. Porém, a monetização é mais rápida: a receita média mensal por cliente ativo (ARPAC) no México alcançou US$ 12,30, frente aos US$ 5,60 que o Brasil gerava em uma etapa equivalente de desenvolvimento.
O crédito, motor do crescimento
A carteira total de crédito cresceu 37% interanual até US$ 39,4 bilhões, impulsionada por cartões (US$ 26 bilhões), empréstimos sem garantia (US$ 10,3 bilhões) e financiamento garantido (US$ 3,1 bilhões). A margem financeira ajustada pelo risco expandiu 290 pontos básicos até 12,4%, graças a um custo de crédito que caiu 9% no trimestre.
No entanto, a qualidade creditícia mostrou sinais mistos. A inadimplência de 15 a 90 dias caiu para 4,8% (desde 5% no trimestre anterior), mas os empréstimos com atrasos superiores a 90 dias subiram para 6,9% (desde 6,5%), atribuído a fatores sazonais e à migração de créditos que entraram em inadimplência precoce durante o primeiro trimestre.
Inteligência artificial a serviço do negócio
O Nubank aprofundou o uso de IA em sua operação. Seu modelo fundacional NuFormer, treinado com mais de uma década de dados transacionais de mais de 100 milhões de clientes, já participa de decisões de crédito para cartões no Brasil e no México, e em empréstimos pessoais no Brasil. Além disso, os agentes de IA gerenciam mais de 60% das conversas de atendimento ao cliente no Brasil, com um desempenho que a empresa considera igual ou superior ao humano.
Reação do mercado e contraste com a banca tradicional
As ações do Nubank subiram 8,4% no after hours (negociações após o fechamento do mercado) após a publicação dos resultados, fechando a sessão regular em US$ 13,93 e avançando até US$ 15,23. O lucro por ação de US$ 0,2162 superou em 8% o consenso do mercado.
O contraste com a banca tradicional brasileira foi notável: enquanto o Ibovespa (índice da bolsa de valores de São Paulo) recuou com o Banco do Brasil cedendo 4,2% por preocupações com sua inadimplência, o Nubank foi premiado pelo mercado. Segundo o relatório da Delphos Investment, a inadimplência de 90 dias do Nubank melhorou em todas as faixas de renda desde julho de 2025, enquanto os segmentos comparáveis da banca tradicional se deterioravam.
Perspectivas e desafios
David Vélez, fundador e CEO global, resumiu o momento: 'Há treze anos começamos com uma hipótese simples: que um banco construído sobre tecnologia, sem agências e sem um legado a defender, poderia servir melhor a centenas de milhões de pessoas a uma fração do custo. Isso já não é uma hipótese'.
Com uma recompra de ações que já executou US$ 500 milhões dos US$ 1 bilhão autorizados em junho, e um balanço mexicano praticamente sem uso (empréstimos sobre depósitos de apenas 35%), o Nubank se posiciona para continuar crescendo. O desafio será confirmar nos próximos trimestres que o aumento da inadimplência tardia foi efetivamente sazonal e não uma deterioração estrutural.
Fontes: Bloomberg Línea | Ámbito | El Cronista | Infobae/EFE