O presidente do Banco Central da Argentina (BCRA), Santiago Bausili, reconheceu em Mendoza que a atividade avança a um ritmo próximo de 2% ao ano, bem abaixo das expectativas oficiais. Ele atribuiu a cautela ao 'medo' e ao 'estresse pós-traumático' dos argentinos e detalhou as ferramentas para destravar a incerteza eleitoral.

Um diagnóstico sincero desde Mendoza

O presidente do Banco Central da República Argentina (BCRA), Santiago Bausili, participou nesta sexta-feira, 14 de agosto de 2026, na Bolsa de Comércio de Mendoza do encontro "Transformação, balanço de gestão e metas estratégicas", onde expôs diante de um auditório repleto de empresários e referências políticas. Acompanhado pelo governador Alfredo Cornejo e pelo deputado nacional Lisandro Nieri como moderador, o funcionário realizou um diagnóstico cru, mas esperançoso, sobre o presente e o futuro da economia argentina.

"De 2024 até hoje, é uma economia que cresce devagar, em torno de 2% ao ano. Muito mais devagar do que gostaríamos", admitiu Bausili, em uma declaração que rapidamente repercutiu na mídia nacional. No entanto, esclareceu que "se eliminou a tendência de queda" e que a economia "começou a crescer a partir da eliminação das restrições em 2024", embora com forte heterogeneidade entre setores e províncias.

O 'medo' como principal inimigo

Um dos conceitos mais fortes da exposição foi o papel do medo na tomada de decisões econômicas. "Ainda há um elemento que domina as tomadas de decisões na Argentina, que é o medo, o que chamamos de estresse pós-traumático", afirmou Bausili. Segundo ele, esse fator está presente em diferentes níveis, desde as famílias até o sistema financeiro, e gera um excesso de prudência que não condiz com os fundamentos macroeconômicos.

"Se os fundamentos são sólidos, o risco do que dizem esses medos é muito baixo, então o prêmio fica caro", explicou, referindo-se à prudência excessiva que acaba freando ou adiando decisões de investimento. O funcionário destacou que "os argentinos poupam em dólares, mas o sistema bancário não", e apontou a necessidade de canalizar essa poupança para o sistema financeiro formal.

Crédito: recuperação em maio, junho e julho

Em relação ao sistema financeiro, Bausili confirmou que o crédito está recuperando terreno. "Nos últimos três meses, maio, junho e julho, os três meses mostraram números positivos em termos de crescimento do crédito, tanto em pesos quanto em dólares", detalhou. O crédito havia parado no segundo trimestre de 2025, em antecipação ao processo eleitoral, e depois passou por um período de atraso antes de voltar a crescer.

O titular do BCRA esclareceu que não antecipa uma multiplicação do crédito como a ocorrida entre 2004 e 2005, "porque isso foi porque estávamos praticamente em zero". Atualmente, o nível de crédito é baixo na comparação regional e até mesmo em relação a momentos históricos próprios, mas já representa "um número mais relevante" dentro de um crescimento que considerou razoável.

Segundo dados mencionados pelo funcionário, o sistema creditício nacional é de 9,6% do PIB em pesos e 12,5% em dólares, cifras muito inferiores às de outros países da região. Bausili antecipou que a inadimplência "tocou um teto" e começará a cair, o que pode impulsionar ainda mais o crédito.

O desafio do financiamento de longo prazo

Bausili identificou como uma das principais fraquezas do sistema financeiro argentino a ausência de instrumentos que canalizem a poupança de longo prazo. "O que falta é pensar em instituições que, dentro da economia, estiveram muito fracas, e é a falta de um setor de ferramentas que canalizem a poupança de longo prazo no sistema financeiro", afirmou.

O funcionário explicou que essa carência gera um problema estrutural para os bancos, que captam depósitos de prazos muito curtos e precisam emprestar a prazos muito mais longos. "Os bancos captam depósitos à vista ou a um prazo de trinta dias, e emprestam a vinte anos. Não podem fazer isso com uma parte importante do seu balanço, não podem correr esse risco de descasamento em um volume enorme", alertou.

Nesse contexto, mencionou o sistema de fundos de pensão como uma das ferramentas pensadas para atrair poupança de médio e longo prazo, e apontou as limitações que a indústria de seguros de vida e de previdência enfrentou para se desenvolver como canalizadora de poupança de longo prazo.

Inflação: convencidos de retomar o caminho

Em relação à inflação, que em julho acelerou para 2,1% mensal segundo o INDEC, Bausili justificou que "podemos mencionar elementos muito pontuais como a sazonalidade e o turismo", mas "estamos convencidos de que vamos retomar o caminho" de desaceleração que havia sido alcançado entre abril e junho. O funcionário ressaltou que "a política monetária mantém um viés contracionista" e que o objetivo central continua sendo a redução da inflação.

Quanto ao contexto internacional, Bausili revisou a alta do preço do petróleo a partir de março e seus efeitos sobre a inflação e as taxas de juros em nível global. Ele sustentou que, ao contrário de outros ciclos, esse choque externo não se traduziu em um desvio do rumo econômico local, porque encontrou a Argentina "muito melhor apoiada em fundamentos econômicos".

Eleições 2027: a estratégia para destravar a incerteza

Um dos momentos mais aguardados da exposição foi a referência às eleições de 2027 e como o governo planeja enfrentar a incerteza que historicamente gera o calendário eleitoral. Bausili explicou que a contrabalançará com mais desregulamentação e lembrou que os ataques especulativos "já custaram muito caro para a maioria em 2025".

"Foi como pagar um prêmio de seguro e não fez sentido. Por isso, desta vez muitos não vão embarcar nessa situação", apontou. O presidente do BCRA destacou que o Banco Central está sólido em termos de reservas e que as ferramentas disponíveis são as mesmas de antes: inflação em queda, ordem macroeconômica, superávit fiscal e o alto custo que o medo produziu (que hoje se traduz em endividamento e inadimplência).

Também lembrou o ajuste financeiro de outubro de 2025, um dos mais fortes da história recente em termos de taxas de juros, e observou que desde 2002 todas as vezes que o regime cambial e financeiro foi testado, acabou se esgotando e precisou ser reescrito, "todas as vezes, exceto em outubro de 2025".

A nova norma de créditos em dólares

Bausili também se referiu à recente norma que permite aos bancos emprestar dólares a empresas não exportadoras, uma medida que o governo oficializou por meio de um Decreto de Necessidade e Urgência (DNU). A flexibilização modifica o artigo 23 do Decreto 905/02, permitindo que os bancos emprestem até 15% de seus depósitos em dólares a empresas que não geram divisas.

O funcionário explicou que a medida busca fomentar a poupança formal e não "debaixo do colchão", e que o fundamento é que não pagam ganhos aqueles que canalizam suas poupanças através do sistema bancário. A possibilidade obriga a ter um garantidor exportador e limita a 15% esse tipo de crédito.

Segundo dados do mercado, os depósitos em dólares do setor privado passaram de USD 14.100 milhões em dezembro de 2023 para USD 40.300 milhões atualmente, enquanto os empréstimos em dólares cresceram de USD 3.700 milhões para USD 24.600 milhões. A capacidade adicional estimada é de cerca de USD 5.800 milhões.

O apoio de Cornejo e a reforma do BCRA

O governador Alfredo Cornejo, hoje aliado ao La Libertad Avanza, juntou-se à análise e defendeu o rumo econômico do governo, especialmente em matéria de ordem fiscal e equilíbrio macro. "A situação mudou para melhor", afirmou Cornejo, e acrescentou: "A estabilidade deve se transformar em previsibilidade para gerar investimentos e crescimento sustentado".

O mandatário mendocino deu seu aval à reforma da Carta Orgânica do BCRA que está em debate no Congresso, destacando que "nos sentimos confortáveis apoiando essa proposta". Sobre esse ponto, Bausili destacou a importância de restringir as chances de o BCRA financiar o Tesouro e avançar em direção a uma maior autonomia da autoridade monetária. "O país não deve mais discutir o uso do Banco Central para financiar o déficit fiscal", indicou.

Cornejo também expressou que ainda há desafios pendentes, como transformar a poupança em investimento e fortalecer o acesso ao crédito para PMEs, projetos produtivos e financiamento habitacional.

Dados-chave da exposição

  • 📊 Crescimento: ~2% ao ano, "muito mais devagar do que gostaríamos"
  • 📈 Inflação em julho: 2,1% mensal, com expectativa de retomar a desaceleração
  • 🏦 Crédito: recuperação em maio, junho e julho, tanto em pesos quanto em dólares
  • 💵 Crédito em dólares: nova norma permite emprestar até 15% dos depósitos a não exportadores
  • 🗳️ Eleições 2027: a estratégia é mais desregulamentação e lembrar o custo do medo em 2025
  • 🏛️ Reforma do BCRA: Cornejo deu seu aval; busca-se maior autonomia e restrição ao financiamento do Tesouro

Fontes: Infobae, La Nación, La Voz del Interior, Los Andes. O encontro foi organizado pela Bolsa de Comércio de Mendoza e contou com a presença do governador Alfredo Cornejo, do deputado Lisandro Nieri e de referências empresariais locais.