Um investimento que marca um antes e um depois
O gigante agroindustrial Molinos Agro, controlado pela tradicional família argentina Pérez Companc, deu um passo contundente para reativar o principal complexo exportador da Argentina. Junto com a Asociación de Cooperativas Argentinas (ACA), a empresa anunciou em 13/08/2026 um investimento de US$ 500 milhões para construir uma nova usina de processamento (conhecida no setor como "crushing") de soja em Timbúes, Santa Fé, segundo o portal iProfesional.
O processo de crushing é fundamental para extrair o óleo de soja e produzir o farelo proteico usado na alimentação animal. A futura usina terá uma capacidade inicial de 15.000 toneladas diárias, o que equivale a um consumo anual próximo a 5 milhões de toneladas de soja. Ela será construída em terrenos da ACA, com acesso às instalações de recepção, armazenamento e ao porto já existentes. A Molinos Agro terá o controle majoritário do projeto, com 65% de participação.
📊 Dados-chave da nova usina
- Investimento: US$ 500 milhões
- Localização: Timbúes, província de Santa Fé (Argentina)
- Capacidade: 15.000 toneladas/dia
- Consumo anual estimado: 5 milhões de toneladas de soja
- Participação da Molinos Agro: 65%
- Sócio estratégico: Asociación de Cooperativas Argentinas (ACA)
Um balanço recorde que respalda a aposta
O investimento não é por acaso. No mesmo dia, foram divulgados os resultados financeiros da Molinos Agro referentes ao primeiro trimestre fiscal (abril a junho de 2026), que demonstram uma saúde financeira sólida. Segundo os relatórios apresentados à Comissão Nacional de Valores (CNV) da Argentina, a empresa registrou um lucro líquido de $ 45.961 milhões de pesos, um valor 20% superior aos $ 38.306 milhões obtidos no mesmo período de 2025.
As receitas com vendas atingiram $ 1,078 bilhão de pesos, enquanto o resultado operacional foi de $ 65.838 milhões, representando uma melhoria anual de 25%. O lucro bruto também cresceu, passando de $ 74.683 milhões para $ 86.381 milhões, o que representa 7,9% das vendas, contra 7,3% no ano anterior.
O desempenho foi impulsionado por margens de processamento de soja e girassol superiores à média histórica, uma produção recorde no início da colheita e o uso pleno da capacidade industrial. As exportações foram o principal motor: do total de receitas, $ 952.801 milhões vieram do exterior, enquanto o mercado local gerou $ 125.549 milhões.
O fim de 12 anos sem investimentos
Para Javier Preciado Patiño, renomado consultor do mercado de grãos, este investimento tem um valor simbólico e estratégico enorme. “Isso encerra uma sequência de 12 anos sem novos investimentos no complexo da soja”, destacou em entrevista ao jornal La Nación.
Para entender o contexto, é necessário explicar as chamadas "retenciones" na Argentina. Trata-se de impostos cobrados pelo governo sobre as exportações agrícolas. O especialista explicou que a queda na área plantada e na produção de soja na última década foi o resultado de uma política de retenções que penalizou a oleaginosa em comparação com seu principal concorrente: o milho. O diferencial de impostos de exportação entre soja e milho chegou a 30 pontos percentuais, o que alterou completamente as margens econômicas e empurrou os produtores a escolher o cereal.
Os números são eloquentes: a superfície plantada com soja caiu de 20,5 milhões para 16 milhões de hectares, enquanto o milho avançou de 6,9 milhões para 10,6 milhões de hectares. A produção nacional, que atingiu um recorde histórico de 61,4 milhões de toneladas na safra 2014/15, hoje gira em torno de 50 milhões de toneladas.
A soja volta a ganhar terreno
O horizonte, no entanto, começa a clarear. A perspectiva de redução das alíquotas de exportação para a soja a partir de janeiro de 2027 é um dos fatores que incentivaria um maior plantio. Segundo projeções da Bolsa de Comércio de Rosario, a soja ganharia 600 mil hectares do milho na próxima safra, com uma superfície total que retornaria a cerca de 17 milhões de hectares.
Os problemas trazidos pela chicharrita (uma praga que afeta severamente as lavouras de milho na Argentina) e os custos de transporte também jogam a favor da soja. Preciado Patiño destacou que o diferencial de impostos já foi reduzido para 15,5 pontos, praticamente o mesmo nível de dezembro de 2015, e estimou que pode cair para 13,5 pontos em 2027 e 9,5 pontos no final de 2028.
O campo como grande gerador de divisas
Enquanto isso, os números do setor confirmam seu papel central na economia argentina. Segundo o economista David Miazzo, “durante o período de janeiro a junho, as cadeias agropecuárias e agroindustriais aportaram 72% das divisas líquidas, o equivalente a US$ 19.246 milhões”. Os 28% restantes foram explicados por Mineração (15%), Informática (3%) e Energia (10%).
A arrecadação com impostos de exportação também mostra uma tendência positiva: em julho atingiu $ 1,2 bilhão de pesos, com um crescimento de 35% em relação a junho e de 110% em relação a maio. As exportações do mês somaram 14,6 milhões de toneladas, muito acima das 9,4 milhões de toneladas de junho.
Um alerta para não ficar para trás
A indústria de óleos vegetais, no entanto, alerta que a Argentina poderia estar perdendo uma oportunidade histórica no setor de biocombustíveis. Gustavo Idígoras, presidente da CIARA-CEC (Câmara da Indústria de Óleos Vegetais e Centro de Exportadores de Cereais), foi contundente: “Enquanto o Brasil constrói futuro, nós vivemos no passado, com uma lei vigente de estilo soviético e um projeto no Senado que não tem interesse legislativo em ser aprovado”.
O executivo destacou que o Brasil acabou de regulamentar o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV), enquanto a Argentina continua discutindo sua lei de biocombustíveis. “O futuro da Argentina passa por gerar bioenergias baseadas em matéria-prima agrícola com alta qualidade e sustentabilidade, e fomentando a livre concorrência. É o momento de aprovar uma lei que gere futuro”, concluiu.
Com o mega investimento em Timbúes e um cenário de impostos mais equilibrado, a soja argentina parece pronta para escrever um novo capítulo de sua história, embora o desafio de agregar valor com biocombustíveis continue sendo uma tarefa pendente.