O mercado cambial argentino volta a ser o centro das atenções. Após semanas de relativa calma, o dólar ultrapassou os R$ 1.525 no início de agosto, um nível que despertou preocupação entre investidores e poupadores. Embora tenha recuado em seguida, a tensão revela um fenômeno mais profundo: a política e a economia estão cada vez mais entrelaçadas de olho em 2027.
O economista e diretor da C&T Asesores, Camilo Tiscornia, analisou a situação em entrevista à rádio Cadena 3 Rosario e foi contundente: "As eleições do ano que vem são a grande prova de fogo para todo o esquema econômico atual". Segundo Tiscornia, a incerteza eleitoral já começa a pesar sobre as expectativas e, na Argentina, qualquer sinal político repercute diretamente no câmbio.
A 'barreira psicológica' dos R$ 1.500
O nível de R$ 1.500 tornou-se uma referência-chave para o mercado. Na sexta-feira, 14 de agosto, o dólar atacadista fechou em R$ 1.487,50, seu nível mais baixo desde o final de julho, após duas sessões de alta. No Banco Nación, a cotação caiu R$ 5, para R$ 1.510 na venda, enquanto o dólar tarjeta (cartão) recuou para R$ 1.963.
No entanto, a calma foi relativa. O dólar blue (paralelo) operou em R$ 1.545, o contado com liquidação (CCL) em R$ 1.583 e o MEP em R$ 1.521,39. A contrapartida dessa estabilidade foi uma maior tensão nas taxas de curto prazo: a caução subiu de 20% para 23% de TNA (Taxa Nominal Anual), e os prazos fixos institucionais chegaram a marcar uma TNA próxima de 25%.
O arsenal do governo para conter o dólar
Segundo um relatório do site Infobae, a equipe econômica lançou uma bateria de medidas para evitar que a moeda ultrapasse de forma sustentada os R$ 1.500. Estas são as principais ferramentas utilizadas:
1. Emissão de títulos dólar linked (USDL)
O Tesouro aumentou a colocação de títulos ajustados pela taxa de câmbio oficial, tanto em licitações primárias quanto no mercado secundário. Segundo a Quantum Finanças, a emissão de USDL desde abril de 2026 atingiu o equivalente a quase US$ 11 bilhões, com um aumento notável no volume negociado.
2. Intervenção no mercado futuro
O Banco Central (BCRA) interveio ativamente no ROFEX, aumentando a venda de contratos de dólar futuro. Entre maio e junho, a posição vendida passou de US$ 193 milhões para US$ 492 milhões. Além disso, estima-se que o BCRA tenha vendido dólares nos mercados livres em cerca de US$ 1 bilhão entre abril e junho.
3. Ajuste das taxas de juros
As taxas em pesos passaram por um ajuste, com a caução subindo de 20% para 23% de TNA. Essa medida busca desestimular a dolarização e fortalecer a demanda por ativos em moeda local.
4. Venda direta de dólares
Em um dia específico, o Tesouro vendeu divisas no mercado atacadista para evitar uma valorização da moeda que forçasse o pagamento de custos maiores no vencimento de uma letra dollar-linked.
5. Acumulação de reservas
As autoridades definiram como meta a compra antecipada de pelo menos US$ 10 bilhões até as eleições. No entanto, em agosto o ritmo desacelerou: o BCRA adquiriu apenas US$ 249 milhões no MLC (Mercado Livre de Câmbio), contra US$ 2.163 milhões em julho.
A 'grande prova de fogo' de 2027
Para Tiscornia, a pergunta central é: "Até que ponto os argentinos estão apoiando ou vão continuar apoiando esse esquema ou um parecido, ou realmente querem voltar atrás?". O economista destacou que a incerteza política já se reflete no mercado e que o governo tenta intervir para evitar movimentos bruscos, embora sem fixar um preço.
Em relação à atividade econômica, Tiscornia foi claro: "O mais complexo é a parte da atividade econômica". Os indicadores mostram sinais contraditórios, com alguns dados positivos e outros negativos, e ainda não permitem falar em uma recuperação forte e sustentada.
A oferta de dólares e a diversificação exportadora
Outro fator que influenciará o segundo semestre é a menor oferta de dólares ligada ao fim da safra agrícola. No entanto, Tiscornia destacou que a estrutura exportadora argentina está se diversificando: "Hoje somos exportadores líquidos de energia", afirmou, mencionando o crescimento das exportações energéticas e o acesso ao crédito em dólares para empresas.
Desvalorização ou correção?
Tiscornia relativizou os movimentos recentes: "Pensemos na faixa de movimentos que houve: passou de 1.400 e pouco para 1.500 curto". Ele chegou a afirmar que uma correção cambial poderia ter um aspecto positivo se houvesse um atraso cambial: "Se isso ajudar a corrigir um atraso cambial, em algum ponto eu diria bem-vindo". O problema, esclareceu, está na velocidade dos movimentos.
O futuro: encaixes, taxas e a herança do BCRA
Por fim, Tiscornia analisou a discussão sobre os encaixes bancários (reservas compulsórias). Ele alertou que existe uma tensão entre estimular a atividade e conter a pressão sobre o dólar: "Longe de reduzir os encaixes, pensando exclusivamente nisso, você teria que aumentá-los para secar a praça e evitar que haja tanto peso querendo correr contra a taxa de câmbio". No entanto, reconheceu que uma redução poderia contribuir para uma economia com maior liquidez e taxas mais baixas.
O economista lembrou que os elevados encaixes têm relação com a herança da dívida do BCRA e das antigas LELIQ, e que os níveis atuais respondem à necessidade de administrar aquela herança monetária.
Com informações de Cadena 3, Infobae e Ámbito.