BCRA reduz compras de dólares para segurar inflação e câmbio
O Banco Central da República Argentina (BCRA) registrou nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, uma compra de apenas US$ 10 milhões no mercado oficial de câmbio, a segunda menor desde o início do programa de acumulação de reservas. A operação foi realizada em um dia de baixo volume, com US$ 344 milhões negociados no total.
Por que o governo decidiu frear as compras?
A estratégia é uma decisão deliberada da autoridade monetária, liderada por Santiago Bausili, para não validar pressões sobre o câmbio e sustentar a desaceleração da inflação. Segundo fontes da equipe econômica, a prioridade no curto prazo é a estabilidade nominal e a âncora cambial, em vez da velocidade de recomposição das reservas brutas.
O dólar atacadista fechou nesta terça em $1.495 para venda, $7,50 acima do fechamento da sexta anterior, mantendo-se abaixo da barreira psicológica de $1.500. Segundo o analista Gustavo Quintana, a moeda começou a semana com tendência compradora em um mercado de baixo volume, com mínimas de $1.490,50 e máximas de $1.496,50.
Taxas em alta: caução opera perto de 30%
O movimento cambial ocorreu em um contexto de maior tensão no mercado monetário. As taxas curtas voltaram a subir fortemente, com a caução chegando a operar perto de 30%, sinal de liquidez ajustada. Em paralelo, a TAMAR avançou de 24,19% para 24,56%, enquanto a BADLAR subiu de 22,56% para 23,31%.
Segundo PPI, a tensão entre taxa e dólar continua porque o governo enfrenta um trade-off cada vez mais visível: a alta de taxas não pode ser atribuída à última licitação do Tesouro (com um rollover de 100,3% que implicou absorção de apenas $10.000 milhões), mas a possível intervenção do BCRA no mercado secundário de títulos dollar-linked teria restringido novamente a liquidez.
Reservas brutas e efeito avaliação
Apesar da compra oficial, as reservas internacionais brutas subiram US$ 96 milhões e fecharam em US$ 49.592 milhões. O estoque permanece acima de US$ 49.000 milhões, embora sem recuperar o máximo recente de US$ 50.000 milhões.
A alta ocorreu apesar de um efeito negativo de avaliação: o ouro caiu 1,70%, retirando cerca de US$ 65 milhões do valor contábil das posições do BCRA. No mercado global, o dólar avançou 0,12%, enquanto o euro recuou 0,07%, a libra caiu 0,11%, o yuan se depreciou 0,05% e o iene caiu 0,14%.
Dólares alternativos e brecha cambial
| Cotação | Valor (18/08/2026) |
|---|---|
| Dólar atacadista | $1.495 |
| Dólar oficial (Banco Nación) | $1.510 |
| Dólar MEP | $1.517,76 |
| Dólar CCL | $1.591,09 |
| Dólar blue | $1.555 |
As cotações terminaram em alta. A brecha entre o blue e o atacadista ficou em 4,01%, enquanto o câmbio ficou em 4,83%.
Para quem não está familiarizado: o dólar blue é o câmbio paralelo não oficial, o MEP é obtido pela compra e venda de títulos, e o CCL é o 'contado com liquidação', usado para enviar dólares ao exterior.
Inflação: a aposta oficial
O IPC de julho foi de 2,1% mensal (apenas 0,2 ponto percentual acima de junho), um dado que deu relativo alívio ao governo. Para os próximos meses, segundo as previsões do Relevamento de Expectativas do Mercado (REM) publicado pelo BCRA, espera-se um IPC de entre 1,8% e 1,9%, descendo para 1,6%-1,8% nos meses seguintes, exceto dezembro pelo impacto sazonal do Natal.
O governo busca que o dólar atacadista não supere $1.500 e que o varejo fique na ordem de $1.515-$1.520 no máximo, para evitar o repasse a preços de uma eventual alta da moeda.
Futuros e expectativas
No mercado futuro, a curva operou com altas em todos os prazos: agosto avançou 0,40%, setembro subiu 0,43%, dezembro ganhou 0,43% e os contratos de 2027 também fecharam em terreno positivo. A taxa implícita de agosto ficou em 1,96% mensal (23,48% anualizado), enquanto a de setembro foi de 1,85% mensal (22,14% anualizado).
O REM projeta um dólar oficial em torno de $1.652 para o fim do ano e uma desinflação sustentada. Em paralelo, o ministro da Economia Luis Caputo habilitou o crédito em dólares para todas as empresas, com limite de 15% dos depósitos em moeda estrangeira por banco (potenciais US$ 40.000 milhões), medida que pode reforçar a oferta de divisas no mercado oficial, embora os analistas alertem para o risco eleitoral desse esquema.