Um recorde que esconde um alerta
O INDEC (Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina) confirmou nesta quinta-feira que a balança comercial de julho fechou com um superávit de US$ 2.115 milhões, o melhor registro para um mês de julho em toda a série histórica. As exportações alcançaram US$ 8.854 milhões (+14,1% na comparação anual) e as importações totalizaram US$ 6.739 milhões (-1,7%). Com esse resultado, o superávit acumulado nos primeiros sete meses do ano já soma US$ 16.080 milhões.
Porém, uma análise mais detalhada dos números revela que o melhor momento da onda exportadora pode ter ficado para trás. Em termos dessazonalizados, as exportações caíram 4,9% em relação a junho e a tendência-ciclo também mostrou um recuo de 1,1%. O saldo de julho, além disso, ficou abaixo dos US$ 2.235 milhões registrados no mês anterior.
O petróleo, o grande protagonista
O setor de Combustíveis e Energia voltou a ser o motor indiscutível do comércio exterior argentino. As exportações do setor cresceram 97,8% na comparação anual, chegando a US$ 1.506 milhões, impulsionadas por um aumento de 67,6% nas quantidades e de 19,5% nos preços.
O petróleo bruto foi a estrela: as vendas alcançaram US$ 1.020 milhões, com um salto de 144,4% contra julho de 2025. A produção de Vaca Muerta — a gigantesca formação de xisto na Patagônia argentina, comparável ao pré-sal brasileiro — segue batendo recordes, com 914.900 barris diários em junho, e já responde por cerca de 70% da produção total do país.
O superávit energético acumulado entre janeiro e julho alcançou US$ 6.853 milhões, um aumento de 84% em relação ao mesmo período de 2025.
O preço do barril, um fator decisivo
O conflito no Oriente Médio disparou o preço do barril de petróleo nos primeiros meses do ano, beneficiando diretamente a Argentina. No entanto, analistas alertam que esse efeito começa a se diluir.
Em julho, o barril Brent (referência internacional) teve média de cerca de US$ 83, bem longe dos picos de mais de US$ 110 registrados em maio. As exportações de petróleo de julho ficaram 13,7% abaixo do pico de maio, quando o setor contribuiu com US$ 1.745 milhões.
Bancos de investimento projetam um preço médio de US$ 80 para o segundo semestre, com tendência de queda até o fim do ano. Isso significa que a contribuição da energia dependerá cada vez mais do aumento dos volumes produzidos e não dos preços internacionais.
Importações em queda: menos investimento ou substituição?
As importações caíram 1,7% na comparação anual em valor, mas o recuo foi muito mais profundo em termos de quantidades: -9,2%. E a composição dessa queda acende os alarmes.
Os bens de capital — ou seja, máquinas e equipamentos para a produção — registraram uma queda de 7,7%, enquanto as peças e acessórios para bens de capital caíram 14,9%. Trata-se dos setores mais diretamente ligados ao investimento industrial, um sinal preocupante para a capacidade futura de crescimento do país.
Economistas do IIEP (Instituto Interdisciplinar de Economia Política, ligado à UBA e ao CONICET) e de consultoras como a LCG coincidem que o baixo investimento é consequência do alto nível de capacidade ociosa nas fábricas e da queda nas vendas ao mercado interno. A atividade econômica cresceu apenas 0,8% mensal em junho e o segundo trimestre acumulou um recuo de 0,9%.
No entanto, parte da contração das importações tem uma leitura positiva. As compras de picapes no exterior caíram porque estão sendo substituídas por produção local, e as importações de combustíveis foram reduzidas em 23,8% nas quantidades graças ao aumento da produção doméstica de hidrocarbonetos.
O que esperar para o resto do ano?
O último Relatório de Expectativas de Mercado (REM) do Banco Central argentino projeta exportações de US$ 100.207 milhões e importações de US$ 76.773 milhões para todo o ano de 2026, o que implicaria um superávit próximo de US$ 23.400 milhões.
A entrada em operação do oleoduto VMOS (Vaca Muerta Sur), prevista para o fim do ano, pode acelerar o crescimento do setor energético. As duas monoboias do sistema já cruzaram o Estreito de Ormuz e devem chegar a Punta Colorada, na província de Río Negro, no fim de outubro.
Para 2027, as projeções falam em exportações de energia superiores a US$ 18.500 milhões, consolidando Vaca Muerta como o novo motor estrutural da economia argentina. Em um contexto de câmbio controlado e reservas ainda limitadas no Banco Central, cada dólar exportado faz diferença — e é por isso que os próximos meses serão decisivos para saber se a Argentina conseguirá manter esse ritmo ou se o superávit começará a encolher.