O recém-iniciado diálogo entre La Libertad Avanza e o PRO para 2027 começou com atritos: enquanto o Governo busca eliminar as PASO, Mauricio Macri as apoia. A disputa pela Cidade de Buenos Aires e as candidaturas na província aumentam a pressão sobre uma negociação que está apenas começando.

Um acercamento com limites imediatos

O acercamento entre o Governo nacional e o PRO, iniciado formalmente esta semana com a conversa telefônica entre Karina Milei e Mauricio Macri (segunda-feira, 10 de agosto) e a posterior reunião na Casa Rosada (quinta-feira, 13 de agosto), já mostra suas primeiras rachaduras. A nova mesa política, integrada por Fernando de Andreis e Cristian Ritondo pelo macrismo; Martín e Eduardo “Lule” Menem pela La Libertad Avanza; e o chefe de Gabinete Diego Santilli, concordou em se reunir a cada duas semanas. Mas as diferenças sobre o sistema eleitoral e a montagem das candidaturas para 2027 ficaram expostas imediatamente.

O que são as PASO?

As PASO (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias) são eleições primárias na Argentina, realizadas desde 2009, onde todos os partidos selecionam seus candidatos em uma única votação. Elas foram criadas para democratizar a escolha interna e dar legitimidade aos postulantes, mas geram alto custo e são criticadas por alguns setores.

PASO: o primeiro campo de batalha

O principal ponto de conflito é a reforma eleitoral. Enquanto a Casa Rosada impulsiona suspender ou eliminar diretamente as PASO (o projeto entrou no Senado em 22 de abril de 2026), o PRO defende sua continuidade. “As PASO são um instrumento que funciona e dá legitimidade. Pessoalmente, acredito que devem ser mantidas”, afirmou De Andreis, um dos dirigentes de maior confiança de Macri. Essa postura representa um obstáculo para o oficialismo, que precisa dos votos macristas no Congresso para avançar com a modificação do sistema eleitoral.

“Mauricio tem dúvidas sobre o que fazer”, reconheceram na cúpula do PRO, embora o ex-presidente tenha recebido sugestões de governadores como Maximiliano Pullaro para eliminar a ferramenta.

A disputa pela Cidade de Buenos Aires

Outro foco de tensão é a Cidade de Buenos Aires, bastião histórico do PRO desde 2007. Karina Milei ordenou a funcionários nacionais intensificar visitas ao distrito e reforçar a construção política da LLA. A principal referência libertária portenha, Pilar Ramírez, impulsiona uma reforma política que propõe eliminar as PASO portenhas e tirar do Executivo da Cidade a potestade de definir a data eleitoral, transferindo-a à Legislatura. Esse avanço libertário sobre território macrista aumenta a pressão na negociação, enquanto cresce a disputa interna entre os primos Mauricio e Jorge Macri pela reeleição do chefe de Governo.

O PRO: entre a absorção e a autonomia

A reunião de quinta-feira na Casa Rosada, da qual participaram os Menem, Santilli, Ritondo e De Andreis, deixou sensações contraditórias. Interlocutores de Macri ouviram do ex-presidente que o encontro foi “negativo”, enquanto De Andreis deu uma versão mais otimista em privado. O destino do PRO parece inclinar-se para uma absorção pelo projeto libertário, mas dirigentes como Ignacio Torres, governador de Chubut, advertiram que “o ajuntamento não tem nenhum sentido se for apenas para ganhar uma eleição”. Além disso, Hernán Lacunza, pré-candidato presidencial com aval de Macri, não pretende baixar suas aspirações e já marca diferenças com decisões econômicas do Executivo.

O peronismo, atento e em movimento

Enquanto isso, o peronismo observa com atenção. Na terça-feira, 11 de agosto, Axel Kicillof, Máximo Kirchner, Sergio Massa, governadores K e chefes de bloco se reuniram em um hotel de Retiro para coordenar uma posição comum em defesa das PASO. Uma nova cúpula peronista está prevista para quarta-feira, 19 de agosto, com a presença de Emilio Monzó e Miguel Pichetto. O kirchnerismo fechou o cerco sobre Kicillof, que somou o polêmico Santiago Cúneo ao seu espaço, enquanto as pesquisas mostram um cenário adverso para o oficialismo: segundo a Universidade de San Andrés, 57% acreditam que o país piorou e 61% desaprovam a gestão de Milei.

Um panorama incerto rumo a 2027

A negociação está apenas começando, mas as regras eleitorais, as candidaturas e a distribuição territorial antecipam uma discussão complexa. Enquanto o Governo busca conquistar vitórias legislativas antes do fim do mês, o PRO tenta preservar sua identidade e o peronismo sonha com uma janela eleitoral. A próxima reunião da mesa mista está marcada para daqui a duas semanas, embora ninguém descarte novos curto-circuitos antes desse encontro.