A discussão sobre as PASO volta ao centro do cenário político argentino. Enquanto o governo de Milei impulsiona sua eliminação, um projeto alternativo propõe torná-las opcionais. Em paralelo, Macri impõe condições para um acordo com La Libertad Avanza. O que está em jogo?

A campanha para as eleições de 2027 começou muito antes de aparecerem as candidaturas definitivas. Javier Milei e Mauricio Macri movem suas peças em um setor, enquanto Axel Kicillof, Sergio Massa, Cristina e Máximo Kirchner discutem o futuro do peronismo. A política já pensa nas urnas; boa parte da sociedade, ainda em como chegar ao fim do mês.

Nesse cenário, surge a discussão sobre as Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (PASO). Não se trata apenas de uma questão institucional. A definição do sistema eleitoral pode beneficiar ou prejudicar cada força conforme seu grau de unidade, a quantidade de candidatos e sua capacidade de mobilizar eleitores.

O projeto do governo: eliminar as PASO

O governo de Milei enviou ao Congresso uma reforma eleitoral que propõe eliminar definitivamente as PASO. Seu argumento é conhecido: as internas pertencem aos partidos e não deveriam ser financiadas por todos os contribuintes. A Casa Rosada sustentou, além disso, que as primárias nacionais de 2023 custaram $45.000 milhões e não resolveram nenhuma competição relevante.

Mas o oficialismo não dispõe sozinho das maiorias necessárias. Por isso, começou uma negociação com radicais, dirigentes do PRO, forças provinciais, governadores e setores do peronismo.

A alternativa: PASO opcionais

Uma das alternativas foi apresentada pelo senador radical correntino Eduardo Vischi. Seu projeto conserva as primárias, mas elimina a obrigação de votar para os cidadãos. Também permite que as agrupações sem competição interna não participem e estabelece um piso de participação equivalente a 10% do eleitorado para realizar a eleição.

A proposta abre mais perguntas do que respostas. Se o voto é voluntário, quantos cidadãos participariam de uma eleição destinada a ordenar as candidaturas de partidos com os quais não se identificam? É provável que compareçam principalmente filiados, militantes e eleitores com forte identidade política. Nesse caso, a primária continuaria sendo aberta em termos legais, mas poderia se tornar, na prática, uma competição dominada pelos aparatos partidários.

O resultado teria uma legitimidade diferente. Uma participação elevada demonstraria que a sociedade considera valioso intervir na seleção de candidatos. Uma concorrência escassa, por outro lado, reforçaria o argumento daqueles que sustentam que as internas devem ser resolvidas e financiadas por cada agrupação.

O custo das PASO segue em discussão

Também permanece a discussão econômica. Embora os cidadãos deixem de ser obrigados a votar, o Estado deverá organizar as eleições, dispor de escolas, autoridades de mesa, segurança, logística e escrutínio. Retirar a obrigatoriedade não elimina por si só o custo das PASO.

Seus defensores assinalam que o mecanismo permite ordenar a oferta eleitoral, reduzir a dispersão de candidaturas e resolver as diferenças dentro de uma coalizão. Além disso, obriga que todos compitam sob regras comuns e evita que as direções partidárias escolham seus postulantes entre poucos dirigentes.

O jogo político por trás da reforma

Para o peronismo, conservar as PASO poderia ser especialmente útil diante de uma eventual disputa entre o kirchnerismo, Kicillof, Massa e os governadores. Para o oficialismo, eliminá-las poderia obrigar a oposição a resolver essas diferenças antes de chegar às urnas ou empurrá-la a competir fragmentada. Aí aparece o pano de fundo da reforma: cada força defende o sistema que melhor se adapta à sua estratégia.

As PASO não elegem autoridades, mas candidatos. No entanto, também não são uma simples pesquisa: quem perde dentro de uma agrupação fica impedido de se apresentar por fora com outra lista nessa mesma eleição. Essa regra ajuda a unificar coalizões, embora também transfira a toda a sociedade uma disputa que muitas vezes pertence às estruturas partidárias.

As três condições de Macri

Nas conversas com o governo, Macri fixou três condições para avançar rumo a um entendimento:

  • Que o oficialismo reconheça o respaldo que o PRO deu à gestão libertária.
  • Que deixe de disputar politicamente a Cidade de Buenos Aires.
  • Que o aceite como o interlocutor encarregado de negociar pelo partido em todos os distritos.

O ex-presidente também reclamou que La Libertad Avanza deixe de incorporar individualmente dirigentes de seu espaço. Depois desses planteios, houve sinais de aproximação. Em uma reunião com Cristian Ritondo e Fernando De Andreis, Martín e Eduardo “Lule” Menem reconheceram o acompanhamento que o PRO deu ao governo em momentos-chave.

A negociação com os governadores

A estratégia oficialista não termina em Macri. O chefe de Gabinete, Diego Santilli, e o ministro da Economia, Luis Caputo, viajaram a Albigasta, Catamarca, para inaugurar um aqueduto junto aos governadores Raúl Jalil (Catamarca) e Elía Suárez (Santiago del Estero). A obra havia sido comprometida no ano passado em meio às negociações pelo respaldo das bancadas provinciais à suspensão das PASO.

Os mandatários do Norte Grande têm previsto chegar à Casa Rosada para pedir compensações no marco do debate no Senado pela lei de Zonas Frias. As províncias do norte que não contam com redes de gás sustentam que devem arcar com elevados custos elétricos para atravessar os meses de altas temperaturas e reclamam algum mecanismo que compense a redução de subsídios.

O bloco opositor que pode frear a reforma

A construção de acordos será especialmente importante se o oficialismo decidir avançar finalmente contra as PASO. A última sessão do Senado deixou um sinal das dificuldades que poderia encontrar. A oposição reuniu entre 37 e 39 votos para rejeitar um capítulo da reforma da lei de Manejo do Fogo. No oficialismo, calculam que uma maioria similar poderia bloquear qualquer tentativa de suspender ou eliminar as primárias.

Esse bloco inclui legisladores do peronismo, Convicción Federal, Santa Cruz, Misiones e setores da UCR, entre outros espaços.

O que a sociedade espera?

A Argentina precisa determinar o que espera de suas primárias. Se são uma ferramenta pública para ordenar a competição política, devem contar com participação suficiente, regras claras e uma justificativa democrática. Se são apenas internas partidárias financiadas pelo Estado, o questionamento cidadão resulta inevitável.

Torná-las opcionais pode ser uma saída para reunir votos no Congresso, mas não necessariamente uma solução institucional. Corre o risco de conservar o gasto, reduzir a participação e entregar maior influência aos setores mais mobilizados.

Enquanto isso, a política segue buscando quem resolva sua interna. E a sociedade, observando.