O governador de Neuquén, Rolando Figueroa, se reúne nesta quarta-feira com o chefe de Gabinete argentino, Diego Santilli, na Casa Rosada. Em pauta: a transferência de rodovias nacionais, garantias para o subsídio da Zona Fría e o projeto de uma quarta ponte sobre o rio Neuquén. O encontro ocorre após o voto contra a Lei de Terras e em meio à negociação pela eliminação das PASO.

Cúpula com agenda carregada na Casa Rosada

O governador da província argentina de Neuquén, Rolando Figueroa, se encontra nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026, com o chefe de Gabinete da Nação, Diego Santilli, na Casa Rosada, sede do governo argentino em Buenos Aires. A reunião, marcada para as 15h (horário local), busca destravar temas estratégicos para a província patagônica e definir o tom da relação entre o governo nacional e Neuquén, que viveu um capítulo tenso com a rejeição à Lei de Terras.

Figueroa chega fortalecido após o voto negativo de sua senadora Julieta Corroza à iniciativa governista que permitia a venda de terras a estrangeiros. “Colocar Neuquén à frente de tudo impõe respeito”, afirmou uma fonte próxima ao governador, segundo publicou o site EconoJournal.

O governo nacional, por sua vez, busca somar apoios para seu pacote de reformas-chave, entre elas a eliminação das PASO (eleições primárias obrigatórias), a modificação do regime de Zona Fría e a reforma do Banco Central. A reunião com Figueroa faz parte de uma estratégia mais ampla de aproximação com governadores considerados “dialógicos” – aqueles que negociam com o governo federal.

Rodovias nacionais: o pedido central

Um dos eixos da reunião será a transferência de rodovias nacionais para a administração provincial. Figueroa busca eliminar entraves para que Neuquén possa administrar e melhorar corredores estratégicos que conectam com o Chile e com os principais centros turísticos.

Em declarações após a inauguração da avenida Crouzeilles na capital neuquina, o governador detalhou as rodovias que pretende assumir:

  • Ruta 242 (acesso ao Paso Internacional Pino Hachado)
  • Ruta 231 (em direção ao Paso Cardenal Samoré)
  • Ruta 40 (trecho sul)
  • Ruta 237 (conexão com Bariloche)
  • Ruta de los Siete Lagos (para desenvolver o corredor turístico)
  • Ruta 22 (trecho urbano, para melhorar acessos à capital)

“Temos uma trava para que nos concedam algumas rotas das quais queremos nos encarregar”, afirmou Figueroa, conforme noticiou LM Neuquén. O governador adiantou que em um ou dois meses, “todos os passos internacionais também serão administrados pela Província”.

Quanto à Ruta 22, o prefeito de Neuquén capital, Mariano Gaido, já planeja a construção de uma ponte elevada sobre Casimiro Gómez, as obras de Los Paraísos e a duplicação da pista até o limite com Río Negro. Figueroa confirmou também que se trabalha em uma quarta ponte sobre o rio Neuquén, projeto há muito esperado para descongestionar o trânsito.

Zona Fría: garantias para o subsídio patagônico

Outro ponto-chave da agenda é o regime de Zona Fría. Esse regime é um subsídio energético que beneficia regiões de clima frio da Argentina, incluindo a Patagônia, reduzindo as tarifas de gás e eletricidade para moradores e empresas. Figueroa pedirá que Santilli se comprometa publicamente a não reduzir o valor do subsídio destinado a Neuquén e à região. “Vamos pedir manifestações expressas”, disse o governador, citado pelo site oficial Neuquén Informa.

A preocupação surge por causa da reforma que o oficialismo impulsiona para reduzir o custo fiscal do regime. Enquanto isso, o governo nacional já acordou com governadores do Norte Grande um esquema paralelo de zonas cálidas, ampliando subsídios elétricos, em uma tentativa de somar votos no Senado. Figueroa, que já antecipou sua rejeição a um artigo que dá discricionariedade ao Executivo para fixar percentuais, busca blindar o benefício patagônico.

Vaca Muerta e o trabalho conjunto com Río Negro

Figueroa também apresentará a necessidade de melhorar a transitabilidade em direção a Vaca Muerta, a gigantesca reserva de petróleo e gás não convencional localizada principalmente em Neuquén, com menor impacto nas cidades. “Queremos avançar em um projeto que vamos elaborar com Río Negro em conjunto com o CFI (Conselho Federal de Investimentos)”, assinalou.

O governador de Río Negro, Alberto Weretilneck, anunciou que a negociação pela transferência das rotas 22 e 151 em sua província entrou em “etapa final”. A coordenação entre as duas províncias busca gerar infraestrutura de suporte para o crescimento da atividade petrolífera e de gás.

Terras fiscais: a filosofia que distancia Figueroa do Governo

O governador neuquino foi contundente ao se referir à Lei de Terras: “Votamos contra porque temos outra filosofia sobre a quem pertence a terra”. Neuquén apresentou um projeto na Legislatura provincial para blindar as terras fiscais, que representam aproximadamente 33% do território.

A lei neuquina estabelece que as terras fiscais só podem ser adjudicadas, vendidas ou arrendadas a cidadãos argentinos ou pessoas jurídicas constituídas no país com projetos produtivos. “Acreditamos que é importante retomar o diálogo, porque quando há concordância e uma norma que faz bem a Neuquén, acompanhamos; mas quando consideramos que algo faz mal, nos opomos”, explicou.

O contexto político: PASO e eleições 2027

A reunião ocorre em um cenário de intensa negociação política. O oficialismo precisa de votos para aprovar a eliminação das PASO, projeto que já entrou no Senado e que o peronismo tenta frear. As PASO são as eleições primárias abertas e obrigatórias na Argentina, usadas para definir candidatos de cada partido. Figueroa já adiantou seu acordo em prescindir das primárias, embora não endosse outros pontos da reforma eleitoral, como a habilitação da lista sábana (lista fechada) na Boleta Única de Papel.

O governador neuquino também tem em agenda sua participação na quinta-feira no Council of the Americas, onde o presidente Javier Milei também discursará, junto com Luis Caputo, Pablo Quirno e Federico Sturzenegger.

Segundo o jornal Clarín, o encontro desta quarta-feira faz parte da estratégia do governo para “construir pontes com as províncias” e avançar com sua agenda legislativa. A reunião é o primeiro cara a cara entre Santilli e Figueroa após o voto negativo à Lei de Terras, um gesto que o governador busca transformar em posição de força negociadora.