05/07/2026 22:10 - Politica
Publicado em 05 de julho de 2026 | Fonte: La Política Online
Para entender a política argentina, é essencial conhecer seus protagonistas. Axel Kicillof é o atual governador da província de Buenos Aires (a maior e mais populosa do país, frequentemente decisiva nas eleições nacionais). Nesta quinta-feira, 2 de julho de 2026, Kicillof realizou uma cúpula política em La Plata (capital da província) com cerca de 60 líderes de sua linha interna, o Movimento Direito ao Futuro (MDF).
No encontro, que contou com prefeitos, legisladores e deputados nacionais de sua facção, o mandatário foi claro sobre a montagem eleitoral rumo às presidenciais de 2027: «Não há submissão, vamos às PASO ou internas».
As PASO (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias) são um sistema de pré-candidaturas único na Argentina, onde todos os partidos devem votar internamente no mesmo dia. O governo atual, liderado pelo presidente liberal Javier Milei, avalia a eliminação deste sistema, o que geraria a necessidade de «internas» tradicionais dentro de cada partido.
A declaração de Kicillof ocorre em um contexto de atrito com o kirchnerismo, a ala mais radical do peronismo (o movimento político fundado por Juan Domingo Perón). Especificamente, há tensões com La Cámpora, uma organização política juvenil liderada por Máximo Kirchner, filho da ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner. A organização busca impor condições para apoiar a eventual candidatura presidencial de Kicillof. Neste cenário, Cristina Kirchner teria manifestado que Kicillof não é sua candidata, o que gerou uma revisão estratégica dentro do kirchnerismo.
«Não haverá unidade com condicionamentos», afirmou Kicillof a seus dirigentes, deixando claro que o peronismo deve avançar através de uma eleição interna ou das PASO, caso o governo de Milei elimine essa ferramenta eleitoral.
O governador evitou confrontar diretamente as recentes críticas de Máximo Kirchner, que em um ato público no Parque Lezama havia questionado que quem fala de unidade «nem sequer é capaz de ir ver Cristina» e apontou que não quer «candidatos por padrão». Kicillof instruiu seus aliados a não responder às provocações e a focar nas necessidades do povo. «Nosso espaço nasceu com a convicção de que, para defender nosso povo e propor um caminho alternativo, temos que fazer o esforço de construir algo novo», sustentou.
Enquanto Kicillof busca legitimar sua candidatura através de uma competição interna, o kirchnerismo avalia evitar esse cenário. Seu plano consistiria em lançar Cristina Kirchner como primeira candidata em uma lista, obrigando a Justiça Eleitoral a explicitar sua impugnação (ela possui condenações judiciais que a desabilitariam para cargos públicos, mas o kirchnerismo busca expor isso politicamente). Isso daria enorme centralidade à ex-presidente, que apareceria nos cartazes e na «Boleta Única de Papel» (o sistema de votação em papel usado na Argentina).
Neste esquema, a incógnita recai sobre quem acompanharia a ex-mandatária como candidato a vice-presidente. Fontes consultadas indicam que soam duas figuras históricas do espaço: Mariano Recalde e Wado De Pedro.
A ação de Kicillof ganha relevância em um quadro nacional onde o oficialismo sofreu recentes modificações. Após a renúncia de Manuel Adorni ao Cargo de Chefe de Gabinete de Ministros (equivalente a um primeiro-ministro) em 27 de junho de 2026, assumiu Diego Santilli em 30 de junho de 2026, reduzindo o gabinete a 8 ministérios. A gestão de Milei celebra indicadores macroeconômicos positivos, com o dólar oficial cotado a $1.510, o «dólar blue» (dólar paralelo) a $1.525 e reservas que superam USD 48.000 milhões. No entanto, analistas indicam que esses dados ainda não se refletem no bolso de grande parte da população, o que poderia influenciar o cenário de polarização que Kicillof busca para 2027, abrindo espaço para um debate democrático renovador.
Alfredo S. Quiroga