Testemunho de Pablo Brizzio no Tribunal Oral Federal 7
O julgamento do caso Cuadernos, que investiga suposta corrupção sistêmica na Argentina, ganhou novos contornos com o depoimento de Pablo Brizzio, diretor da siderúrgica Techint, um dos maiores grupos industriais da América Latina. Em uma sessão tensa, Brizzio negou que tenha conhecido qualquer pedido de suborno, mas foi enfático ao afirmar que o kirchnerismo atuou decisivamente nas tratativas sobre a nacionalização da Sidor, na Venezuela, em 2008.
Ao ser questionado pela promotora Fabiana León, o engenheiro foi direto: “Não, eu nunca souvi de nada sobre pagamentos”. Ele contextualizou que a Techint assumiu a gestão da empresa e investiu em melhorias. A produção de aço subiu de menos de 2 milhões de toneladas para mais de 4,5 milhões de toneladas durante o período em que foi controlada.
“Havia pinturas do tipo ‘Fora Argentinos’, manifestações em frente à fábrica e até invasões de escritórios”, lembrou Brizzio.
Processo de saída e participação do governo argentino
Após a nacionalização, a Techint precisou retirar seus funcionários argentinos. Brizzio contou que a tensão foi alta, mas a saída foi negociada com ajuda de Luis Betnaza e Héctor Zabaleta, ambos da Techint, que acionaram contatos no governo Kirchner. Eles também obtiveram a indenização pela propriedade, evitando assim um litígio no tribunal CIADI.
O diretor também mencionou que José María Olazagasti, ex-secretário privado do ex-ministro de Planejamento Julio De Vido, intermediou a negociação da compensação financeira. “A ação foi exitosa”, disse, sem confirmar qualquer pagamento ilegal.
O caso Cuadernos em resumo
A causa Cuadernos (em português, “Cadernos”) envolve os relatos de Oscar Centeno, que dirigiu um motorista ministerial, sobre o pagamento de propinas a funcionários públicos. No caso específico da Techint, os cadernos registram oito episódios de supostos pagamentos que somam entre 15 e 20 milhões de pesos (aproximadamente R$ 1,2 a 1,7 milhão) a funcionários como Roberto Baratta. No julgamento, há 86 acusados, incluindo a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner.
Na sessão de hoje, a audiência começou às 9h (horário de Brasília) e testemunha do dia, inicialmente quatro, foi reduzida a apenas uma. A tentativa da defesa de Olazagasti de limitar as perguntas foi rejeitada pelo juiz Enrique Méndez Signori. A próxima audiência será na terça-feira, quando depõem os outros executivos.
Contexto e expectativas
Esse depoimento é fundamental para entender a dinâmica da corrupção supostamente sistêmica investigada no processo. A imprensa argentina destaca que as revelações podem ter mais desdobramentos, mas por enquanto o caso continua com a fase de testemunhas. A expectativa é que os próximos dias tragam novas explicações sobre os contatos entre empresas e governo.
Fonte original: Infobae