A líder da bancada governista no Senado, Patricia Bullrich, publicou mensagem exigindo que a mudança econômica chegue à vida cotidiana, mas editou o texto após 45 minutos. O episódio ocorre às vésperas de discursos de Javier Milei em fóruns empresariais, em meio a dados fracos de atividade e inadimplência.

Uma crítica disfarçada de apoio?

Em 19 de agosto de 2026, a senadora Patricia Bullrich, chefe do bloco do partido governista La Libertad Avanza no Senado argentino, publicou uma mensagem nas redes sociais que rapidamente gerou controvérsia: "O que precisamos é de mais velocidade nos resultados para que a mudança seja sentida na vida cotidiana". A publicação, que inicialmente elogiava o rumo econômico ("o rumo é o correto") e o definia como "parte de um processo de transformação profunda", foi interpretada como um puxão de orelha interno em um momento delicado.

O tweet original continha frases mais duras, como "que chegue às famílias. Que chegue às empresas. Que chegue a cada argentino" – trechos removidos cerca de 45 minutos depois, conforme noticiou o jornal La Nación. A versão final suavizou o tom, mantendo apenas a referência à "vida cotidiana".

O contexto: encontro com pequenas e médias empresas

A mensagem veio logo após uma reunião de Bullrich com 70 empresários de pequenas e médias empresas (PMEs) no bairro de Barrio Norte, em Buenos Aires, segundo apurou a La Nación. Pessoas próximas à senadora explicaram que ela representa "setores que estão sofrendo" e busca ficar "um pouco mais perto das pessoas".

A reação do governo

Em Casa Rosada (sede do Executivo), a resposta foi de minimizar o episódio. "Não é mais do que aquilo que a Patricia vem dizendo: o rumo é correto, mas há situações que precisam ser administradas com mais rapidez", afirmou um funcionário próximo a Karina Milei (irmã e conselheira do presidente), em declaração ao site Infobae.

Porém, esse tipo de mensagem costuma desagradar o presidente Javier Milei, que na mesma semana atacou jornalistas que criticaram a situação econômica. O ministro da Economia, Luis Caputo, também não vê com bons olhos sinais de insatisfação dentro da base aliada.

Números que preocupam o oficialismo

  • Inadimplência familiar: ultrapassou 12% em maio, segundo o Banco Central da Argentina (BCRA), com 5,9 milhões de argentinos com mais de três meses de atraso em seus créditos.
  • Atividade econômica: caiu 0,5% na comparação mensal na última medição do INDEC (instituto de estatísticas); a produção automotiva despencou 5,4% no mesmo período.
  • Projeção de crescimento: o BCRA estima apenas 2% para 2026, bem abaixo da meta de 3,5% prevista no orçamento.
  • Vendas de veículos: caíram 17,7% em julho na comparação mensal e 30% na anual, de acordo com a associação de concessionárias ACARA.

Bullrich: uma carreira marcada por divergências

Não é a primeira vez que a ex-ministra da Segurança se distancia do governo. Em 2026, ela já se opôs à manutenção de Manuel Adorni na chefia de Gabinete e ao nome de María Verónica Michelli para uma vaga no Conselho da Magistratura. Também promoveu cortes na Lei de Sociedades proposta pelo ministro da Desregulação, Federico Sturzenegger, e questionou a Lei de Propriedade Privada.

Seu entorno admite que ela já está em "campanha permanente" para as eleições de 2027: "Quer ser candidata a vice-presidente e trabalha para isso", confidenciou uma fonte à La Nación. Essa postura pode ser estratégica para se diferenciar do governo e ampliar sua base de apoio.

O que vem pela frente: Milei em busca de respaldo

Diante desse cenário, o presidente Javier Milei discursará em dois eventos-chave:

Data Evento Local
20 de agosto Council of the Americas Alvear Palace Hotel, Buenos Aires
21 de agosto Bolsa de Comércio de Rosário Rosário, província de Santa Fé

Nessas ocasiões, ele deve reafirmar o programa econômico e descartar qualquer "plano platita" (medidas de estímulo eleitoral). O governo também aposta na visita do Papa Leão XIV em novembro como um marco para reaquecer a agenda e melhorar o clima social, com possível decretação de feriados entre os dias 8 e 11 de novembro.

Fonte: La Nación, Infobae e dados oficiais (INDEC, BCRA, ACARA).