A Câmara Penal de La Plata rejeitou o habeas corpus de Albertina Mangini, funcionária judicial detida por suposta participação em organização criminosa que teria movimentado mais de 27 mil milhões de pesos argentinos através do escaneamento de íris e da abertura de contas em carteiras digitais. A medida mantém a prisão enquanto as investigações prosseguem.

A Justiça argentina rejeitou o habeas corpus apresentado pela secretária judicial Albertina Mangini, de 47 anos, detida em uma operação contra uma rede que teria movimentado 27 bilhões de pesos (cerca de R$ 27 milhões, em valores aproximados) usando carteiras digitais e dados roubados de pessoas carentes. A decisão foi tomada pela Cámara Penal de La Plata, conforme noticiado pelo diário El Día nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026.

Mangini, que atua há 17 anos no Poder Judiciário da província de Buenos Aires, foi presa na quinta-feira anterior (13/08) em um operativo da Polícia Federal Argentina (PFA), junto com outros dois suspeitos: Ignacio Marchioni e Mauro Perrotta. As autoridades a apontam como peça-chave em uma rede que fraudava o sistema financeiro usando a biometria de pessoas vulneráveis para criar contas bancárias e carteiras digitais usadas para mover dinheiro ilegal.

Como tudo começou

A investigação começou quando uma funcionária da limpeza do Patronato de Liberados de La Plata denunciou que havia recebido apenas $40.000 dos $80.000 prometidos por um escaneamento de íris. Ela foi levada a uma confeitaria próxima à Praça San Martín, no centro de La Plata, onde seus olhos foram digitalizados sem maiores explicações.

Esse detalhe alertou os investigadores, que passaram a mapear a organização. Com os dados biométricos obtidos, os suspeitos criavam contas em bancos e carteiras virtuais, usando essas “contas fantasma” como “mulas” para receber e transferir valores ilegais, principalmente de cassinos online não autorizados.

O papel de Mangini

Mangini, que atuava na secretaria de primeira instância do Ministério Público Fiscal, seria responsável por captar as vítimas, escolhendo pessoas com passagem pelo sistema prisional ou em situação de rua. Ela usava o contato com o Patronato de Liberados para recrutar essas pessoas, oferecendo pequenos valores em troca do escaneamento dos olhos, sem que elas soubessem do uso que seria dado às suas identidades.

A defesa de Mangini nega as acusações e afirma que ela é inocente, mas os investigadores apontam a funcionária como peça central para o recrutamento e a logística do esquema.

O padrão suspeito: valores com terminação .12

Os investigadores detectaram uma assinatura característica nas transações: os montantes sempre terminavam com .12 e nunca ficavam totalmente zerados, mantendo cerca de $1.000 de saldo. Esse padrão era utilizado para evitar alertas dos sistemas de controle financeiro.

O que é “smurfing” (pitufeo)?

O esquema usa a técnica de “smurfing” (ou “pitufeo”), que consiste em dividir grandes somas ilegais em muitos depósitos pequenos, de modo a escapar dos limites de monitoramento bancário. Assim, o dinheiro “lavado” atravessa múltiplas contas em um curto espaço de tempo.

Conexão com Sur Finanzas

Um dos presos, Ignacio Marchioni, é um ex-financista que já havia sido ligado à Sur Finanzas, a operadora financeira acusada de movimentar US$ 108 milhões entre 2020 e 2025, com participação de 16 clubes de futebol. Na casa dele, a PFA apreendeu um BMW M240i, uma pistola Glock 9mm e dólares.

O que foi apreendido nas buscas?

ItemQuantidade
Telefones celulares17
Notebooks4
CPUs6
Pendrives3
Posnets6
DVRs2
Discos rígidos2
Dinheiro em pesos$2.787.440
Dólares americanosUS$ 3.300
Pesos uruguaios$3.490
Dólares de Hong KongHK$ 50

Os elementos foram apreendidos em 9 endereços em La Plata, Quilmes, Mar del Plata e La Falda (Córdoba).

Quem são os detidos?

NomePapel na investigaçãoDetalhes
Albertina ManginiRecrutamento de vítimasSecretária de 1ª instância, 17 anos de serviço no Poder Judiciário; detida na quinta-feira (13/08)
Ignacio MarchioniAbertura e administração de contasEx-financista ligado à Sur Finanzas; apreendidos BMW, arma e dólares
Mauro PerrottaAbertura e administração de contasMarplatense, proprietário de 3 academias; detido na sexta-feira (14/08)

Defesa e próximos passos

Os três presos estão alojados em dependências da Polícia da província de Buenos Aires, em La Plata. Mangini se recusou a declarar, enquanto Marchioni apresentou um escrito negando as acusações. A defesa de Mangini tenta agora recorrer à instância superior, mas a decisão da Cámara Penal de La Plata, que analisou o habeas corpus, optou por manter a prisão para garantir a continuação das investigações.

O juiz de Garantias nº 6, Agustín Crispo, foi quem autorizou as buscas e as detenções, a pedido da fiscal Betina Lacki. A hipótese inicial é que o dinheiro movido pela rede seja apenas a “ponta do iceberg” – e que, por trás dela, exista uma organização mais ampla, com contatos em vários pontos do país.

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