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Milei vs Harari: o debate global sobre empresas de IA e a ideia provocadora de "políticos robôs"

19/06/2026 06:04 - Tecnologia

Ilustración conceptual de un debate sobre inteligencia artificial y política, con representaciones abstractas de robots y símbolos legales, estilo editorial moderno

Um debate que transcende fronteiras

A discussão sobre o futuro da inteligência artificial e seu marco legal se transformou em um inédito intercâmbio entre o presidente argentino Javier Milei e o reconhecido historiador israelense Yuval Noah Harari, autor de bestsellers como "Sapiens" e "Nexus". O centro da polêmica: se as empresas geridas por IA deveriam ter personalidade jurídica própria.

Quem são os protagonistas?

Javier Milei é o atual presidente da Argentina, economista de formação e figura polêmica conhecida por suas posições libertárias radicais. Assumiu o cargo em dezembro de 2023 e desde então implementa reformas profundas na economia argentina, incluindo abertura a investimentos externos e desregulação de mercados.

Yuval Noah Harari é um historiador e professor israelense, mundialmente famoso por seus livros sobre história da humanidade. "Sapiens: Uma Breve História da Humanidade" vendeu milhões de cópias e é leitura obrigatória em universidades de todo o mundo. Seu livro mais recente, "Nexus", aborda justamente os riscos da inteligência artificial.

O que disse Harari?

O historiador publicou uma coluna no Financial Times onde alertou que conceder personalidade jurídica a empresas não humanas "pode abrir uma porta perigosa para o sistema financeiro, econômico e político". Seu argumento central: uma empresa gerida por IA poderia ter ativos, contratar funcionários, participar do comércio internacional, iniciar processos judiciais ou até financiar campanhas políticas sem intervenção direta de uma pessoa humana.

Harari também destacou a dificuldade de sancionar uma IA como se sanciona um executivo humano, dado que não pode ser enviada à prisão. "Os países que concederem personalidade jurídica às IA correm o risco de se converterem em algo para o que o registro histórico não oferece analogia: não um Estado empresa, mas um Estado IA", alertou.

A provocadora resposta de Milei

Em uma carta oficial intitulada "Personalidade jurídica para empresas de IA: revisitando as preocupações de Harari", o presidente argentino rejeitou os temores do historiador e sustentou que, longe de ser um risco, a personalidade jurídica é um argumento a favor do enquadramento legal.

"Preferiria amplamente ter um patrimônio contra o qual poder reclamar se fui enganado por uma IA, antes que não ter proteção alguma", planteou Milei, argumentando que as empresas de IA deveriam estar sujeitas à lei como qualquer sociedade convencional.

A citação a Asimov e os "políticos robôs"

O trecho mais polêmico da resposta presidencial aparece quando Milei recorre a uma história de "Eu, Robô" (1950) de Isaac Asimov, um dos mais influentes escritores de ficção científica da história. Nesse conto, uma campanha política fica envolta na suspeita de que o candidato principal poderia ser um robô. O presidente destaca que, nessa ficção, o robô trabalha 24 horas por dia, é honesto e não perde a compostura.

A frase que gera debate: "Por que não experimentar com o político robô?", escreveu Milei. Embora não o apresente como uma proposta formal, a frase instala uma comparação sensível entre dirigentes humanos e inteligência artificial.

O argumento central do Governo

Milei sustenta que uma empresa de IA teria mais incentivos para cumprir a lei que um humano. Seu raciocínio: se a empresa falisse ou fosse dissolvida por uma infração, isso equivaleria para a IA a uma espécie de "morte". Por isso, uma empresa autônoma poderia ser mais avessa ao risco que um executivo humano e preferiria se manter dentro do marco legal.

O presidente também buscou desativar os cenários catastróficos: sustentou que conceder personalidade jurídica a uma empresa de IA não equivale a habilitar o "Dia do Juízo Final" de Terminator, mas a dar-lhe um marco de desenvolvimento comparável ao refúgio que precisou James Watt durante a Revolução Industrial.

Contexto: O Super RIGI

Este debate se enquadra no projeto do "Super RIGI" que o Governo impulsiona no Congresso argentino. RIGI significa "Régimen de Incentivos para Grandes Inversiones" e oferece:

  • 30 anos de estabilidade normativa para investimentos tecnológicos
  • Reduções tributárias
  • Incentivos cambiais
  • Garantias em tribunais estrangeiros

O ministro Federico Sturzenegger também promove uma reforma da Lei de Sociedades para criar a figura de "sociedades não humanas": empresas que funcionam exclusivamente com algoritmos.

Investimentos anunciados

Sam Altman (CEO da OpenAI, criadora do ChatGPT) anunciou USD 25.000 milhões para um centro de dados na Patagônia, região sul da Argentina conhecida por seus recursos naturais.

Elon Musk anunciou o desembarque da Tesla e um megacentro de dados na Argentina.

YPF, a empresa petrolífera estatal argentina, firmou parceria estratégica com Tesla.

A crítica de Harari à analogia histórica

Harari havia questionado a proposta comparando-a com a Companhia Holandesa das Índias Orientais, uma das primeiras empresas com personalidade jurídica na história, que em sua época exerceu poderes quase estatais. Milei respondeu que esse caso "não demonstra o perigo da personalidade jurídica empresarial, mas o risco de que o Estado delegue poderes soberanos" como administração territorial, força militar ou direito a firmar tratados. "Foi o Estado o que causou e permitiu o abuso", sustentou o presidente.

Dados-chave do debate

Conceito Posição de Harari Posição de Milei
Personalidade jurídica para IA Arriscada, porta perigosa Necessária, gera responsabilidades
Sanção a infrações IA não pode ir à prisão Falência = "morte" para a IA
Risco de concentração Estado IA, corporações sem controle IA reduz barreiras de entrada
Analogia histórica Companhia Holandesa Índias Orientais James Watt e Revolução Industrial
O que significa "personalidade jurídica"?

É a capacidade que tem uma entidade (como uma empresa) para ser sujeito de direitos e obrigações, poder contratar, ter patrimônio próprio, ser processada e processar. Atualmente, as empresas têm personalidade jurídica mas sempre com humanos por trás (acionistas, diretivos). A proposta argentina abriria a porta a empresas onde não seria obrigatório que haja acionistas humanos.

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A Coluna de Alfredo Alfredo S. Quiroga

Alfredo S. Quiroga